Vírus não morrem, adormecem

Ler. É sempre uma viagem, nestes terríveis anos de peste em que as viagens foram proibidas, primeiro para “os grupos de risco” nos quais me incluo pela idade. Depois foi para todos, se viu com as providências dos governos logo que reconhecida a pandemia em março de 2020: fecharam-se as fronteiras, as cidades, os países.

Dei-me o tempo para mergulhar no mundo digital, fruto da revolução tecnológica da internet, e motivada pela presidência – um trabalho voluntário – do PSDB-Mulher, que fundamos em 1998, e que passava a enfrentar a 1ª eleição com campanha virtual da história. Afinal, campanhas são para aproximar eleitores e candidatos – o que se considerava proibido com as curvas de infectados e mortos subindo exponencialmente. Até, felizmente, a chegada da vacina.

Para compreender o significado do momento reli A Peste, de Albert Camus, publicado no pós-guerra em 1947. Estava tudo lá. A peste, as providências, as pessoas e suas emoções, narradas pelo autor que se declara ao final o médico que por tudo passou. Mais tarde, se viu, estava Camus escrevendo sobre a peste do totalitarismo, já que a peste doença era de 1918. E não a das Grandes Guerras de 1914 e 1939, nas quais Camus usou sua metáfora.

Para ilustrar a profunda verdade da narrativa, copio aqui as páginas finais do livro:

 “Do morro escuro subiram os primeiros foguetes dos festejos oficiais. A cidade saudou-os com uma longa e surda exclamação. Cottard, Tarrou, aqueles e aquela que Rieux tinha amado e perdido, todos, mortos ou culpados, estavam esquecidos. O velho tinha razão, os homens eram sempre os mesmos. Mas essa era a sua força e a sua inocência, e era aqui que Rieux, acima de toda a dor, sentia que se juntava a eles. Em meio aos gritos que redobravam de força e de duração, que repercutiam longamente junto do terraço, à medida que as chuvas multicores se elevavam mais numerosas no céu, o Dr. Rieux decidiu, então, redigir esta narrativa, que termina aqui, para não ser daqueles que se calam, para depor a favor dessas vítimas da peste, para deixar ao menos uma lembrança da injustiça e da violência que lhes tinham sido feitas e para dizer simplesmente o que se aprende no meio dos flagelos: que há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar. Mas ele sabia, porém, que esta crônica não podia ser a da vitória definitiva. Podia, apenas, ser o testemunho do que tinha sido necessário realizar e que, sem dúvida, deveriam realizar ainda, contra o terror e a sua arma infatigável, a despeito das feridas pessoais, todos os homens que, não podendo ser santos e recusando-se a admitir os flagelos, se esforçam, no entanto, por ser médicos. Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieux lembrava-se de que essa alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que essa multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.”

Bem, é isso. O vírus está entre nós e, como peste, aos poucos vai ficando escondido nas frestas do cotidiano – numa clara menção à tirania, aos governos autocratas, à realidade da guerra que marcou o século XX como aquele “das guerras”. Mas hoje, declarada a guerra por Putin na Ucrânia neste fevereiro de 2022, o texto se torna de novo atual.

 Os tempos difíceis chamam as pessoas às perguntas de sempre, e o que há de novo neste momento de pandemia e guerra de 2020/22. Na parada forçada pela peste quem pensa, como o narrador de Camus, escreve. O que tem dado renovação à publicação de novos livros. Neste verão escaldante de Porto Alegre, venho acumulando com muito prazer os livros recém-publicados dos amigos que fui fazendo ao longo da vida, por profissão e atitude, para minha própria referência. Sei que foram sendo amadurecidos pela vida inteira, mas publicados/escritos pelos autores nesta época de isolamento forçado de pandemia.

Mostro alguns:

Não é coincidência nem acaso. Pergunto: por que os homens do Real estão escrevendo História? O que acontece neste ano de eleições gerais que faz uma Elena Landau se ligar a uma pré-candidatura presidencial, como fazem Pérsio Arida, como André Lara Rezende, como Affonso Celso Pastore, eu mesma, mais muitos que participam da rica tentativa de construção de uma “terceira via” contra os extremos e as burrices que escrevem a realidade das guerras?

Na comunicação, minha atividade minor, há – concordemos com suas posições ou não, quem bote a cara como um William Waack, um Guilherme Fiuza, uma Ana campeã olímpica-candidata. Na permanente defesa da democracia, um Dagobah que produz ensandecidamente todos os dias publicando nas mídias sociais alertando sobre os perigos walking dead saindo de seus caixões de vampiros.

Enfim, homens e mulheres “botem a cara” buscando ainda tirar o Brasil da segunda divisão (ver Gustavo Franco) em que entrou quando governos fizeram retornar a recessão com desemprego, pois quando o comandaram negaram a necessidade das reformas e a dinâmica da realidade econômica afrontando o convívio trazido pelos mercados aos que demandam frente aos que ofertam?

Eu, em meio à estimulante descoberta de navegar pelos teclados em plataformas, mas continuando com as canetas, as telas do kindle, os bordados, as tintas e os pincéis, vou experimentando mergulhar na busca da “consciência de mim”, como pessoa dessa geração que escreve depois de ter tanto experimentado na ação cotidiana da interação com O Outro. Aproveito ainda a riqueza contida nos streamings da vida, que trazem toda a filmografia mais o mundo pelo YouTube, ilimitado. E vou formando a minha lista. Compartilho. E peço a sua, fruto desse isolamento forçado, caro leitor, cara leitora.

2022-02-28T17:37:31-03:00 28 de fevereiro de 2022|Tags: , , , , |

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