VIDA (I)

De Vida (I), Valor (II), Valores (III)
Por Yeda Crusius*

Enterro coletivo realizado no 22/04, no cemitério de Nossa Senhora Aparecida, em Manaus. Foto: AFP

Leio hoje muitos artigos que falam sobre o valor de uma vida. Estão publicados em jornais, blogs, sites, redes. Eu mesma publiquei um há dois dias, nas redes. O motivo, que é a vida em tempos de pandemia, é suficiente para fazermos deste o nosso tema avançando um pouco mais nas linhas. Vou citar desses artigos apenas partes de um:

Foto de drones mostra corpos sendo enterrados em Nova York. Fonte: Reuters.

“O que vale mais, um iate ou a educação universitária que forma um enfermeiro? Que profissional é mais essencial na sua vida, o diretor de um banco ou quem recolhe o lixo das ruas, mantém supermercados funcionando ou ensina crianças online? (…) Costumamos dizer que bens comuns têm um valor imensurável, mas pandemias têm um jeito todo especial de nos ensinar a medir esse valor. O quanto vai valer a primeira vacina eficaz contra o novo coronavírus para a economia do país que a descobrir? (…) A economia não é a bolsa. (…) Cabe a legisladores e

Vista aérea do Cemitério Vila Formosa, na zona leste de São Paulo/SP. Foto: Paulo Lopes/ BW Press/Estadão

governantes compreenderem a importância do momento para a reconstrução de valores pessoais e econômicos(…) ao redor do bem comum. Pagar melhor as pessoas sem as quais a economia não gira! Priorizar políticas e leis que garantam investimento constante em ciência, definir metas a médio e longo prazos. Sem isso, pessoas não avançam e, sem pessoas, empresas não lucram. Precisamos planejar a reconstrução da economia entendendo que não existe separação entre um e outro. Não sairemos da crise pensando como antigamente.” (Fonte: VALOR – Cristina Bonorino – Zero Hora/ Publicado em 06 de Junho de 2020)

Os protestos pela morte do cidadão negro George Floyd chegaram à Casa Branca, onde um grande grupo de manifestantes se uniu ao grito de “Não posso respirar”. Foto: Brasil El-País. Nicholas Kamm/ AFP

Creio que uma crise tão profunda como a nossa, múltipla em tempestade perfeita, pode levar a mudanças fundamentais necessárias e urgentes. Confessamos que sim, sabemos que somos finitos, tão finitos que algo que não vemos mas que se espalha pelo ar pelas nossas próprias gotículas é capaz de livremente matar centenas de milhares de nós. Tem matado.

A vida no planeta já havia sofrido uma mudança radical de rotina desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu, em 11 de março, e com inaceitável atraso em relação às notícias das primeiras mortes em janeiro, a pandemia do Coronavírus.

Alguns manifestantes lançaram pedras contra o edifício da CNN em Atlanta onde policiais se refugiavam. Carros da polícia foram vandalizados. Foto: Brasil El-País. Ben Gray/ AP

De lá para cá, não paramos de contar o número de corpos que enterramos em cerimônias solitárias nos velórios, imensamente tristes, quando em cova comum, como vemos em imagens pelo mundo. Mais de 397 mil mortes no mundo, dados de agora quando escrevo, e 6,7 milhões de infectados, segundo estatísticas certamente incompletas.

Uma mulher segura cartaz durante protesto contra a morte de George Floyd, em Kansas City. Foto: Brasil El-País. Tammy Ljungblad/ AP

Pois em 25 de maio acende-se o estopim para a explosão desse caldeirão em que a humanidade se encontra: uma morte, a de George Floyd, em Minneapolis, nos Estados Unidos. É uma vida, mas incendeia o mundo em grandes manifestações. Já vimos outras desde a Primavera Árabe de 2011, por causa de uma morte. E tantas nos anos seguintes, derrubando ditaduras de décadas, e aqui derrubando governo. Pacíficas, no início, violentas a seguir. Enquanto isso, só nos EUA hoje o número de contaminados está perto dos dois milhões e o de mortos está próximo de chegar aos 110 mil.

Manifestantes bloqueiam a ruas em frente à embaixada dos EUA em Londres. Foto: Brasil El-País. Justin Tallis/ AFP

Floyd foi vítima da ação truculenta de um policial que manteve o joelho sobre seu pescoço, mesmo ouvindo o grito abafado: “I can’t breath! (Eu não consigo respirar!)”. O pedido de socorro ignorado virou grito de protesto na maior onda de manifestações contra o racismo registrada nos últimos 50 anos, traduzida pelo slogan “Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam). A de George Floyd é uma delas, com nome e história.

Um homem grava um veículo policial em chamas durante protesto em Los Angeles. Foto: Brasil El-País. JAE C. Hong/ AP

Cada vida vale, vale a de Floyd, vale a de cada um daqueles que vem perdendo a batalha para a Covid-19, dos quais não sabemos o nome e nem a história. Mas o vídeo do assassinato de Floyd, transmitido instantaneamente para todo o mundo, colocou em moção as manifestações de rua, afrontando a imposição do isolamento frente à crise da Covid-19. Não se tem a cena de vídeo de cada morte, dentro dos hospitais, e nem a do assassino invisível, o vírus.

Coluna de agentes da Guarda Nacional são cercados por manifestantes antes do anoitecer. Foto: Brasil El-País. Renee Jones Schneider/ AP

É nos laboratórios de pesquisa que se estuda a natureza do vírus, que se cria cada medicamento e vacina para enfrentar cada novo vírus, ou sua mutação. É pelas políticas de vacinação que se previne as mortes pelas doenças já conhecidas, e o Brasil é um dos países de maior desenvolvimento histórico nesse campo. Mas recentemente falhamos.

Segue em VALOR (II).

E então o que vale a vida? Quanto vale?

*Yeda Crusius é presidente do PSDB-Mulher Nacional, governou o Rio Grande do Sul, foi ministra do Planejamento e deputada federal por quatro mandatos.

Data do Artigo: 08/06/20

2020-06-09T16:48:04-03:00 8 de junho de 2020|Tags: , , , , , |

Deixe um Comentário