VALORES (III)

De Vida (I), Valor (II), Valores (III)
Por Yeda Crusius*

Bandeira do Rio Grande do Sul. Foto: Divulgação da Internet

O valor da vida até pode ser medido em termos materiais, expresso em orçamentos públicos e acompanhado de estatísticas que apontem ao resultado do financiamento dos serviços públicos na melhoria da qualidade de vida da população. Dar valor à vida é parte do conjunto a que chamamos de valores morais, como liberdade, igualdade, fraternidade, nas 3 cores da bandeira da França, liberdade, igualdade, humanidade, nas 3 cores da bandeira do Rio Grande do Sul.

Bandeira da França. Foto: Divulgação da Internet

Também são valores solidariedade, ética, responsabilidade, verdade, honestidade, e outros que deveriam guiar a formação de nossas prioridades sociais através da Política. Quando falham em guiar, a sociedade grita.

Porém até as epidemias de dengue, de zica, de febre amarela, apenas o mosquito era o diabo que gerava doença e matava. O mosquito se pode eliminar. Mas agora somos nós, cada um de nós sendo o potencial transmissor da Covid-19. Com essa diferença fundamental, a política tem que ser outra. Invade qualquer privacidade, regula todas as ações. Podemos correr atrás de ações para eliminar o mosquito, mas não as pessoas. Isolá-las sim porque transmissoras. Mas com o isolamento, o mundo se fratura em crise nunca vivida antes.

Foto: Divulgação da Internet

Afloram sob isolamento muitas iniciativas em cada comunidade, mostrando que nossa sociedade tem sim na solidariedade e na ação solidária fontes básicas para a qualidade do nosso convívio. Valores básicos. Por outro lado, se dá uma pausa na guerra “eles e nós”, que vem alimentando um ódio social crescente há décadas, e que trouxe a radicalização entre os extremos dos pseudo liberais e da pseudo esquerda socializante.

Foto: Divulgação da Internet

O Poder Público (os três poderes) então muda na excepcionalidade o orçamento público e as leis. Podem ser suspensos e reduzidos contratos de trabalho. Usa os fundos criados para o crédito e para manter o seguro social em safra de desempregados, tudo para manter o mínimo. Redistribui recursos para o Auxílio Emergencial, o auxílio a estados e municípios de cofres vazios pela paralização da economia sob confinamento, prorroga pagamentos de impostos e aluguéis. Nos estados e municípios, corre o Poder Público para agir sem nunca ter tido a experiência antes. Para enfrentamento ao vírus e em nome da vida.

Auxílio emergencial durante a pandemia. Foto: Divulgação da Internet

Só a guerra das manifestações de rua entre extremos não muda. Cresce. Por enquanto entre extremos. Mas se a perigo ficar a Democracia, já que em épocas de exceção os autoritários avançam, as manifestações bradarão pelo Centro, pela sustentação de um valor maior que é a própria democracia. Aí a mudança virá, e espera-se que não pela ruptura.

O mundo que sairá da crise nunca mais será o mesmo. Mudará o contacto para que se controle o contágio. No modo de convívio, no trabalho, na educação, se trocará o presencial pelo virtual, enfim tudo será mais virtual. Mais máquina, menos humano. Releiam A Peste, de Camus, que escrita em 1947 descreve, sem a atual tecnologia, o mundo absurdo que vivemos hoje.

Foto: Divulgação da Internet

Se não fosse necessário o isolamento para preservar vidas, não haveria a cena dantesca do enterro em cova comum construída às pressas, de noite, sem velório, que vemos em Manaus, em São Paulo, pelo mundo (Equador e Nova York). Embora tenhamos a capacidade de subir aos céus com o foguete Dragon, tripulado, a caminho da Estação Espacial Internacional, tripulada, no dia 30 de maio ao vivo, não conhecemos ainda a natureza desse vírus que mata. Até a descoberta da vacina, há que isolar. E vai tomar tempo.

Foto: Divulgação da Internet

Enquanto isso, vai ganhando essa guerra o medo. O medo do convívio, da visita, do abraço. Do futuro mais incerto do que nunca. Muitos não acreditam, não seguem as regras do isolamento. Contaminam. Sim, porque mesmo hoje muitos, apesar da subida do Dragon, acreditam que a terra é plana. Outros, que vacina é o demo.

Não faltava dinheiro nos orçamentos públicos quando eclodiram as velhas doenças e as novas epidemias. Os recursos públicos iam cada vez mais para os privilegiados de sempre, perdiam eficácia pela ausência de gestão no seu uso, saiam pelos ralos da corrupção endêmica, sumiam na poluição gerada pela indefinição de um projeto de país que estabelecesse prioridades para uma população tão necessitada.

Jogado o jogo político como tem sido jogado, perdem-se muitos milhares de vidas, e as que ficam buscam dar nitidez à esperança de que é possível mudar.

Foto: Divulgação da Internet

O valor da vida, as mulheres conhecem bem. Afinal, são elas que gestam, parem, e muitas cuidam dessas vidas. Cabe a elas – quando não exclusivamente a elas, cuidar e educar as crianças em casa, na escola como professoras, cuidar os idosos e doentes em casa, nas clínicas e nos hospitais como profissionais. Trabalhando, de modo formal ou informal, comprovadamente recebendo menos que homens nas mesmas funções, sustentam a casa e fazem o mundo andar para a frente.

Na tempestade perfeita se ilumina o merecido reconhecimento público que tantas mulheres vêm recebendo pela natureza de seu trabalho de cuidar de vidas: seja dentro de hospitais, onde representam 70% dos profissionais de saúde, seja em suas casas, com os filhos sem aula na escola, na ciência decodificando o genoma da Covid-19, na gestão pública, ou onde mais elas estiverem.

Foto: Divulgação da Internet

Na falta daquelas que cozinham, limpam e faxinam para que os outros pudessem sair para trabalhar, o valor que elas são, que elas geram, ganha mais nitidez. É o valor da vida, da vida digna.

É sobre elas, anônimas como os mortos da Covid-19, que tem recaído a maior parte do peso negativo da sociedade violenta e desigual. No positivo, segue sendo com a ação do cuidar do trabalho delas que o mundo externo, o do cuidado com o outro, recebe a senha para a mudança.

Foto: Divulgação da Internet

Entretanto, hoje tudo indica que ainda não caminhamos para uma pacificação rápida do planeta. Pelo contrário, temo que a atual divisão acabe se acentuando com essa crise de grandes proporções por falta de uma ação concreta. Global. Enquanto isso vamos fazendo nossa parte, ali na cidade que habitamos.

Tanta dor deve ensinar a gemer, segundo o ditado. Talvez com esse aprendizado em tempos de peste, o novo normal do mundo consiga trazer valor a cada vida medida e transformada em orçamentos públicos com novas prioridades que repartam responsabilidades e unam todos em maioria para a necessária mudança dessa sociedade violenta e desigual.

Cuidar é a senha. A chave para a saída.

*Yeda Crusius é presidente do PSDB-Mulher Nacional, governou o Rio Grande do Sul, foi ministra do Planejamento e deputada federal por quatro mandatos.

Data do Artigo: 09/06/20

2020-06-09T22:05:06-03:00 9 de junho de 2020|Tags: , , , , |

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