VALOR (II)

De Vida (I), Valor (II), Valores (III)
Por Yeda Crusius*

Livro “Em Busca de Sentido”, de Viktor E. Frankl. Foto: divulgação da internet

A consciência de VIDA (I) como finitude, tão intensa em decorrência de tempos de pandemia, requer concretamente a ação para além do pensar sobre o sentido da vida (ver Viktor Frankl). Antes que o céu caia sobre as nossas cabeças (Asterix).

Vai ficando claro após o choque da política mundial de confinamento e isolamento social, necessária no mundo aberto da globalização que está sob ataque. Fecham-se fronteiras, aeroportos, indústrias e comércio. Proíbe-se a mobilidade em cada cidade. Acabaram as festas, os estádios de futebol e parques lotados em dias de sol, os grandes shows, a cerimônia de formatura. Nada de abraço e beijo, de reuniões, jogos e aulas. O mundo virado do avesso.

Fique em casa.

Dragon e a Terra. Foto: divulgação da internet

Para entrar nessa é preciso pouco. Um decreto. Para sair, fica claro que devem ser estabelecidas novas prioridades, um “novo normal” para que possa decidir como vamos sair dessa crise, diferente das outras. Só que essa não é questão de decisão individual. Não basta um querer. É uma questão de convívio, de coletivo. Está provado que o atual padrão de vida e de relacionamento, o do mundo totalmente globalizado, nos esgota.

Sem turistas e barcos, coloração da água dos canais de Veneza fica mais clara e nítida. Foto: divulgação da internet

Para que os mares voltem a ser algo transparentes (Veneza), e os céus e as estrelas visíveis para além dos felizardos do Dragon, para que os componentes dos celulares e das vacinas e as máscaras e os equipamentos de proteção, fabricados praticamente por monopólio do Oriente, é preciso ir além.

Pôr do sol laranja em Porto Alegre pela redução da poluição. Foto: divulgação da internet

Com o vírus, muda o padrão do nosso relacionamento na comunidade local, assim como o padrão da produção geral, do nosso consumo pessoal, do nosso relacionamento político. Agora, decidir como vão ser financiadas de verdade essas novas prioridades só pode ser feito através da Política, que não prescinde da Democracia. Só que ela, a política, tem andado por saltos, por extremos.

Nenhuma Mão Invisível de Adam Smith pode tomar a decisão. Ela não é suficiente para resolver os dilemas de escolha frente a um mundo globalizado. Nunca foi, nem quando a vida era numa aldeia – quanto mais numa Aldeia Global de 7 bilhões de seres vivos, com toda a diversidade de culturas e de desenvolvimento.

A crise da Covid-19 grita isso: é no local, na pessoa, que o macro, o global, acaba acontecendo. No enfrentamento da Covid-19 o Estado é fundamental, para isso existe. Quanto será definido pelo mercado, quanto pelo Estado, a velha questão, é o que se coloca de novo.

As crises sanitária, econômica, política e social, juntas hoje numa tempestade perfeita, servem como o combustível para que o mal-estar na civilização do século XXI (reveja Freud) se transforme na revolta que alcança agora as ruas em todo o mundo. A soma da Covid-19 com a morte violenta de um homem negro joga luz na grande transformação no conjunto de valores que teimam em vir à luz hoje sob o isolamento social forçado pela nova peste.

Tem valor para a vida tudo o que deveria ser financiado pelas Políticas Públicas, pois que elas existem para gerar os serviços no coletivo de tudo o que no individual seja necessário: a saúde e o saneamento básico; a produção sustentável, inclusive ambientalmente; a educação, ciência e tecnologia; a segurança, inclusive de renda e alimentar, em cada casa e em todas as ruas; a infraestrutura para a conectividade na mão de cada cidadão e cidadã; a empregabilidade na Sociedade 5.0 – a que leva a ser bem-estar os frutos da Revolução Industrial 4.0.

Todos esses, e outros mais que se quiser nominar, são serviços básicos que sustentam a vida ali onde a pessoa mora, na casa, na cidade. São serviços que correspondem não apenas a direitos civis e coletivos reconhecidos por lei para a sobrevivência digna em sociedade, mas também serviços que nos levem a andar para a frente, em convívio para além da letra da lei, por um projeto de futuro. Questão de escolha.

O vírus não escolhe a vítima pela cor, pelo gênero, pela religião, pela renda, pelo local. O vírus é cego – como a Justiça o deveria ser. Para combate-lo só o coletivo será capaz de dizer o que é prioritário. Senão por consenso, por maioria. Para isso, e porque o Estado é necessário, não é possível deixar que continuem gastando o dinheiro público como e onde se gasta.

Em pleno século XXI em epidemia de dengue, que vem de longe e parece interminável, surgem no Brasil as notícias de que doenças consideradas erradicadas voltaram. Sarampo, pólio, rubéola, difteria. Febre amarela. Por falta de vacina, por falta de uma política firme de vacinação. Trazidas pelo mosquito explodem epidemias como a da zica, que gera microcefalia. A corrida pela vacina em falta escancara o descaso com uma política de fomento da ciência e da tecnologia. Agindo assim, priorizando construir estádio aqui ou portos e aeroportos lá fora, privatizando o dinheiro público via corrupção, o governo demonstrou não dar valor à vida, a cada vida. A tristeza de cada criança doente e vida perdida não encontra eco oficial.

Se esse retorno de doenças consideradas extintas pelo acerto de uma política de saúde e sanitária aplicada por décadas, é porque se esgarçou o tecido social que permitiu que isso acontecesse.

Esgarçou-se o nosso conjunto de VALORES (III). Cai o governo, segue a história. Segue.

*Yeda Crusius é presidente do PSDB-Mulher Nacional, governou o Rio Grande do Sul, foi ministra do Planejamento e deputada federal por quatro mandatos.

Data do Artigo: 09/06/20

2020-06-09T21:36:48+00:00 9 de junho de 2020|Tags: , , , , , , |

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