Porto Alegre de 2022 na Espanha de 2014

Memórias ajudam a analisar o que acontece no mundo hoje. Hoje vivemos uma pandemia que nesta semana registra a triste estatística de 6 milhões de mortos – a do coronavírus, declarada em 2020. Hoje a Rússia invade a Ucrânia, numa guerra que já tem 2 semanas, assombrando com o uso de armas químicas e atômicas, rompendo uma ordem internacional de quase 80 anos que permitiu um longo período de paz após as grandes guerras (GG) do século XX.

Ao final da II Guerra, em 1945, foi-se estruturando uma nova ordem mundial a partir da criação de organismos multilaterais como a ONU, o Banco Mundial, a OTAN, a URSS. Nos anos 1950 ia desmoronando a antiga ordem, feita de países colonizadores e de colônias, na esteira da eclosão de guerras localizadas da Ásia – como a guerra da Coréia e do Vietnã, e as da África. A sombra de uma possível guerra que podia levar ao fim da Humanidade, com o uso da arma desenvolvida durante a II GG, ajudou nessa estruturação institucional com dois grandes blocos liderados por gigantes militares. Um pela Rússia, o bloco soviético, e outro pelos Estados Unidos aliados à Europa ocidental, o bloco, digamos, capitalista. A invasão da Ucrânia pela Rússia acaba de derrubar essa ordem e assombra com a possibilidade do uso de armas atômicas. Antes houve a queda do Muro de Berlim, em 1989, que deu fim à divisão da Europa, com o nascimento `União Europeia, em 1991, e o desmonte da URSS.

Quero datar alguns acontecimentos que vêm da memória até os dias de hoje. Escolho o 15 de maio de 2014 e as profundas mudanças que permitiram emergir na cena política Pedro Sanchéz, hoje o Primeiro Ministro da Espanha. Foi um dos líderes do M15, movimento formado em 15 de maio de 2014 durante as eleições espanholas, sendo eleito e reeleito desde então para conduzir a política parlamentarista daquele país a partir da condução do país por uma Terceira Via. Neste 2022 no Brasil as eleições gerais busca-se também a construção de uma Terceira Via que nos leve longe dos extremos que nos apertam e sufocam desde 2018. Para onde vamos? Cito a frase de entrevista concedida na sua campanha de 2019.

Pedro Sánchez: “Nem coalizão, nem eleições, existe uma terceira via: um programa progressista comum” https://t.co/WLJTRsKnBh via @elpais_brasil
(https://twitter.com/blogdayeda/status/1500765594043494404?t=166UwDwO6dGc_dO6nqNZ2g&s=03)  Vou ligar algumas memórias pessoais aos fatos de hoje. Acordei com vívidas imagens dos últimos sonhos reconfortantes de uma noite bem dormida. As imagens são da Puerta del Sol em Madri. A amiga Wal e eu íamos a pé com as malas, trazidas da viagem desde São Paulo, pelas pedras das ruas da praça. Tivemos que deixar o taxi antes do lugar do hotel porque a praça estava tomada. Los Indignados. Acampados. Barracas tomavam conta do espaço, em um movimento que eu nunca tinha visto com uma organização assim. Era o dia 15 de maio de 2014. O dia em que o movimento M15 se apresentava para o mundo, tomando aos poucos as praças do país a partir de convocação pela internet, na semana das eleições parlamentares na Espanha. “Não nos representam” era o lema. “Venham”. Um vívido relato está em Manuel Castells, o pensador das sociedades em rede, no seu livro recente Ruptura.

Pudemos nos dias seguintes andar por entre as barracas dos Acampados, acompanhando os debates e as votações na praça. O mesmo acontecia em várias praças em toda a Espanha – mais de 50 acampamentos espalhados nas praças do país na semana das eleições. Nesses, a votação era a ferramenta de decisão para todos os assuntos, desde como organizar a coleta de lixo, até onde chegou o movimento para a elaboração de seu Manifesto com os pontos de acordo, na madrugada de 18 de Maio, na Puerta del Sol. Tudo calmo ali, e na cidade. Burburinho na programação dos surpresos canais de TV e estações de rádio.

Eram acampamentos abertos. “Venham”. Não era uma nova guerra, afinal, e sim um movimento pacífico, organizado por jovens que dominavam o recente mundo da internet e das mídias sociais. Desde 2011, com a revolta na Tunísia, esse tipo de movimento foi se multiplicando mundo a fora. Não queriam as TVs – não dependiam dela para seus propósitos. Aliás, eram contra a manipulação que, consideravam, era feita por elas sobre a formação da opinião pública. Ali as emissoras tinham que marcar horário para as entrevistas num tempo em que TUDO para acontecer até então tinha que acontecer pelas emissoras de TV. Não era assim com o M15, um movimento feito através das redes, das mídias sociais, em acelerada expansão, livre.

Hoje tem a ver com Ucrânia, em 08mar2022 por Ferrão, em seus VESPEIRO.

”O mundo de ontem “já era”…

Eu vinha desde 2011, ao final do mandato de 4 anos no Governo do RS, acompanhando eleições livres pelo mundo, algumas como observadora voluntária para o PSDB – como em 2012 na França (eleito o socialista Francoise Hollande) e em 2013, na Itália (Movimento 5 Estrelas, de Beppe Grillo, surpreendendo com 3º lugar). As manifestações vinham na esteira das consequências da violenta crise econômica causada pelo estouro das “bolhas financeiras” de 2008, desde o Occupy Wall Street em 2011, em New York,

e a insurreição na Tunísia, no mesmo ano. Houve um crescimento exponencial dos movimentos nas praças e ruas em muitos países, convocados pela internet, e que derrubaram ditadores de décadas – Egito, Arábia Saudita, outros, chegando ao Brasil em 2013. Uma longa lista. Foi esse o padrão de movimento, livre e pacífico, pacífico e surpreendente, com a crítica à democracia representativa que não mais representava, isso até a nefasta interferência da violência iniciada por grupos tipo black blocs, ampliando-se pouco a pouco depois.

Mas essa manifestação pelo M15 na Espanha em 2014 foi, realmente, diferente. Lá estava Castells, o pensador das sociedades em rede, na praça. Um dos seus líderes foi Pedro Sanchéz, eleito e reeleito várias vezes depois, como condutor da Terceira Via. Com ela, vem conduzindo a Espanha no dia-a-dia da União Europeia, como na saída do Reino Unido da UE pelo Brexit em 2019. Ou enfrentando a dificílima tarefa de conduzir o país durante a pandemia do coronavírus desde 2020 e seus 6 milhões de mortos no mundo. Agora com Putin.

Bem, volto a maio de 2014 com um evento que mexe com o povo todo em todos os países no mundo: a final de futebol, em Berlim, da Champions League, entre o time Juventus, da Itália, e o Barcelona. No dia da final estávamos lá, Barcelona toda nas ruas, com suas camisetas e sua alegria pelo futebol. Até então já tínhamos andado por várias cidades com suas praças tomadas pelo M15. Em Barcelona a maior era na Praça Tahrir, onde teria um telão para transmitir a final. Amanhecemos no hotel com o barulho constante de helicópteros. Fomos lá. A força policial naquela manhã estava desocupando a praça. Os ocupantes saíram. As autoridades acabaram transmitindo a final em outra praça e pronto. Os acampados voltaram e ficaram na Tahrir. E nós com o coração, os olhos e os ouvidos, acompanhando tudo. A Suprema Corte espanhola foi chamada para decidir sobre algo muito importante para as eleições do domingo seguinte. Acampar pacificamente e fazer sua campanha pelo “não votar” era constitucional. Nada de violência.

Fecho esse despertar buscando ilustrar o que ele me traz na relação entre guerra, terceira via e eleições. Selecionei alguns artigos e citações, de A Peste, de Camus – escrita ao final de II Grande Guerra e mais do que atual devido à relação entre pandemia guerra, e de Ruptura, de Manuel Castells, que esteve junto com os acampados e foi incentivador de Pedro Sanchéz desde 2014. Lembra alguma coisa no Brasil neste março de 2022. Bom proveito.


De 1947, A Peste, palavras finais:

Dr. Rieux decidiu, então, redigir esta narrativa, que termina aqui, para não ser daqueles que se calam, para depor a favor dessas vítimas da peste, para deixar ao menos uma lembrança da injustiça e da violência que lhes tinham sido feitas e para dizer simplesmente o que se aprende no meio dos flagelos: que há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar. Mas ele sabia, porém, que esta crônica não podia ser a da vitória definitiva. Podia, apenas, ser o testemunho do que tinha sido necessário realizar e que, sem dúvida, deveriam realizar ainda, contra o terror e a sua arma infatigável, a despeito das feridas pessoais, todos os homens que, não podendo ser santos e recusando-se a admitir os flagelos, se esforçam no entanto por ser médicos. Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieux lembrava-se de que essa alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que essa multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.”

De 2018, Ruptura, trechos:


“Era uma vez a revolução na era da informação As reivindicações surgidas do 15-M não encontraram resposta por parte do Parlamento espanhol. Assim, após várias mobilizações importantes reprimidas pela polícia, alguns ativistas decidiram tentar a sorte na política institucional, porque os dramas humanos que surgiam em toda parte tornavam inadiável uma mudança de política. As eleições para o Parlamento Europeu em maio de 2014 ofereciam a primeira oportunidade de experimentar essa estratégia pela proporcionalidade do sistema de representação. Constituíram-se diferentes coalizões eleitorais em diversos pontos do país. Os principais ativistas do 15-M se agruparam no chamado Partido X, que se mantinha fiel aos princípios assembleares do movimento e renunciou à personalização de seus líderes, daí o X. Era um projeto a ser construído por quem se reconhecesse nele. Obtiveram 250 mil votos, sem chegar a conseguir um só deputado. A razão de seu relativo fracasso foi que o voto popular diretamente inspirado pela contestação radical do sistema se concentrou em uma nova formação política, o Podemos, constituída em janeiro de 2014 por um grupo de jovens acadêmicos nucleados a partir do Departamento da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade Complutense de Madri.(…)

As teses debatidas eram reflexo de problemas reais, e não fantasias ideológicas. (…) Por um desses acasos da vida, fui testemunha de sua reflexão e de sua decisão final. Pedro Sánchez quis se afastar da Espanha por alguns dias para se reencontrar. E foi para a Califórnia com a família. A Califórnia tem aquele exotismo de fim do mundo aonde chega gente de qualquer lugar e para qualquer coisa, território-limite da experiência humana, do qual surgem loucuras criativas do mais alto alcance, como a revolução tecnológica do Vale do Silício ou a fábrica mitológica de Hollywood da qual procedem muitas das histórias que povoam nossa mente. E como eu ando por ali uma parte do tempo, Pedro Sánchez, conhecedor de minha experiência e de meu interesse pelo socialismo espanhol, teve a ideia de conversarmos sobre o que havia acontecido e o que poderia acontecer. Eu, que tenho uma debilidade romântica pelas causas perdidas, como bem sabem meus amigos, animei-o a não se render. Porque, se o fizesse, seria o fim do Psoe, que acabaria fagocitado nas fauces históricas da grande coalizão, devoradora da social-democracia europeia. Falamos e falamos,”

JOSÉ MARCOS

Valência 2019

Vale a pena ler a reportagem inteira, da qual seleciono:

Partido Socialista Operário Espanhol enterrou cinco anos de divisão interna neste sábado, na jornada inaugural de seu 40º congresso, em Valência. O abraço entre Pedro Sánchez e Felipe González, um de seus maiores críticos dentro do partido, simbolizou o fechamento das feridas abertas e a reconciliação dos dirigentes atuais com o passado da organização. Os socialistas saem de seu congresso mais tranquilo desde 2008 com uma reafirmação de seus princípios social-democratas, aos quais agora se somam as etiquetas verde e feminista, dois dos eixos que monopolizaram os debates dos delegados socialistas. Na tradição da social-democracia, o partido de Sánchez aposta numa reforma tributária que, sem mexer no bolso da classe média, contribua para a “justiça fiscal” e amplie a arrecadação pública. A promessa de substituir o modelo produtivo por uma economia limpa se une às várias resoluções aprovadas para avançar nos direitos da mulher, entre elas o compromisso de proibir a prostituição. As reivindicações feministas, em todo caso, foram praticamente o único assunto que motivou alguma controvérsia no encontro. Estas são as grandes linhas programáticas aprovadas pelos socialistas:

Potencializar as políticas feministas. A rejeição de parte do coletivo feminista ao uso das palavras gênero e sexo como sinônimos na apresentação provocou o debate ideológico mais intenso do 40º congresso. Ao final, o texto não foi substancialmente alterado nesta questão, segundo fontes socialistas. O mesmo ocorreu com o uso do conceito trans em lugar de pessoas transexuais. O partido alcançou um acordo na comissão sobre feminismo, e a declaração final do congresso respaldará a Lei Trans. O que ninguém contestou foi o compromisso de melhorar as condições trabalhistas das mulheres com um novo “modelo produtivo”. Nesta linha, o socialismo assume a “enorme responsabilidade de continuar promulgando leis e impulsionando políticas públicas que situem os direitos das mulheres como motor do fortalecimento das democracias, e como avanço nos direitos de cidadania”. Duas das metas são “avançar em uma incorporação e promoção menos segregada e estereotipada nos empregos”

Já em maio de 2021, pelo El País…

Conservadora Ayuso arrasa nas eleições de Madri e conquista mais cadeiras que toda a esquerda

Ayuso é um fenómeno político muito particular porque foi escolhida por Casado sobretudo por ser sua grande amiga e uma pessoa que ele considerava fiel e à prova de tudo. Ao escolhê-la, Casado passava por um momento de grande fraqueza interna e usou seu poder para colocar pessoas fiéis em lugares estratégicos. O de Madri era fundamental. No entanto, Ayuso rapidamente começou a voar sozinha, e muito mais desde que Rodríguez se tornou seu chefe de Gabinete.

Seu partido, o PP, ganha força suficiente para governar sem o apoio do ultradireitista Vox. Derrotado, líder do Podemos, Pablo Iglesias, anuncia sair da política e cita preocupação com “direita trumpista”

Isabel Díaz Ayuso, que dois anos atrás era uma absoluta desconhecida sem uma grande trajetória, consolida-se como um verdadeiro fenômeno político na Espanha. A esquerda fracassa em sua tentativa de conseguir uma reviravolta com a mobilização do voto do sul. A chave para este fiasco é a derrocada do PSOE, que perde em menos de dois anos boa parte do seu apoio, apesar de ter o mesmo candidato que venceu amplamente as eleições em Madri em 2019, Ángel Gabilondo, que na época não pôde formar o Governo porque o bloco da direita obteve mais cadeiras do que a esquerda. (…)O baque foi grande para o líder do esquerdista Podemos, Pablo Iglesias, que com a sua entrada na batalha eleitoral madrilena jogou sobre os ombros toda a responsabilidade pelo resultado. Depois de uma campanha tensa, marcada por ameaças de morte contra ele, ele anunciou nesta terça sua saída da política que vinha preparando há algum tempo. “Eu deixo todos os meus cargos. Deixo a política entendida como política partidária e institucional “, afirmou o candidato em seu discurso. “Continuarei comprometido com meu país, mas não serei um obstáculo para a renovação da liderança que deve ocorrer em nossa força política”, disse.

  • Pablo Iglesias, candidato de Podemos, no discurso em que anuncia seu abandono da política institucional.
  • KIKO HUESCA (EFE )


2022-03-16T17:20:53-03:00 14 de março de 2022|Tags: , , , , |

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