ORA, METAVERSO… A POLÍTICA NO MUNICÍPIO COMO BASE DA CONVIVÊNCIA HUMANA

Por Yeda Crusius

Porto Alegre, 11 de novembro de 2021

Há uma frase famosa citada quando se quer mostrar que estão querendo, para usar uma expressão bem gaúcha, atochar em cima de nós. Nos distrair do que realmente importa. “É a economia, estúpido”. Foi a frase cunhada em 1991 pelo marqueteiro de Clinton na eleição contra Bush, que havia vencido a Guerra do Golfo, e buscava faturar essa vitória que pretensamente apagaria a vergonha da derrota no Vietnã. Mas o país vivia uma recessão, a economia estava fragilizada, era preciso enfrentar o problema da hora: o econômico. Venceu Clinton. Dilma não entendeu o que realmente importava, a economia, e saiu por impeachment em 2016.

A pandemia do coronavírus, reconhecida desde fevereiro de 2020, é o problema da hora. As pessoas tiveram e tem que enfrentar esse gigantesco problema real, que ceifa vidas. As pessoas e seus líderes políticos – prefeitos e vereadores, tiveram que lidar com o desafio de um novo vírus que levou a centenas de milhares de brasileiros mortos. Com a vida não se brinca, há que enfrentar isso no dia-a-dia, e decidir entre as decisões extremas como fechar tudo ou deixar a doença agir, recolhendo os mortos.

As mudanças estavam ali, meio escondidas no dia a dia da sobrevivência, mas vieram à tona de modo rápido, intenso. No mundo todo o “fique em casa” foi um pedido de tempo para as autoridades investirem na fabricação de uma vacina para enfrentar a pandemia. Isso toma tempo. Muito tempo.

Trabalhar em casa, ensinar e aprender à distância, fechar igrejas e restaurantes, proibir aglomerações, fabricar máscaras. Hospitais e todo o sistema de saúde tiveram que mudar a rotina de todo um ciclo longo anterior. Perdemos milhares de médicos e enfermeiros que atenderam os doentes dessa pandemia desde 2020.

Milhões ficaram desempregados porque setores inteiros perderam sua função. O mundo real levou ao isolamento milhões de pessoas, e fez crescer a rede de entregadores em casa de modo extraordinário, levando de tudo aos consumidores. E o que permitiu que assim se sobrevivesse, mal, mas vivos, foi a tecnologia digital, a internet, forçando as pessoas a fazerem de seus celulares o seu meio de ligação com o mundo. Até para receber o Auxílio Emergencial, que salvou muitos para o consumo mínimo.

Só que a tecnologia nunca é neutra: ela é usada por todo o tipo de pessoas. Lembremos que a tecnologia atômica, criada para gerar a vital energia. Foi usada para fazer a bomba. Mostrou, pelos desastres como Chernobyl que sem ter o domínio de seu conhecimento e o cuidado de quem a usa, eram previsíveis pandemias tecnológicas imensas e duradouras.

O mundo da tecnologia permite incluir, como na crise da pandemia, mas mostra o tamanho do mundo dos excluídos. Assim como mostra que a tecnologia das mídias sociais, como Twitter e Facebook, pode ser usada para maldade e golpes. É por elas que se manifesta a divisão das sociedades em todo o mundo entre o “eu” e “eles”. A concentração do poder e da riqueza nas mãos dos donos dessas mídias está clara, e requer que enfrentemos as consequências negativas dessa nefasta concentração.

Está na moda agora falar de “metaverso”, desde que o criador do Facebook, Marc Zuckergerg, decidiu trocar para “Meta” o nome da empresa Facebook, que detém o Instagram, o Whatsapp, e muitas outras empresas poderosas de mídia digital, concentradas numa só.

Em parte, o dono do Facebook faz isso para mudar a marca e escapar da avalanche de críticas – e de processos. Suas empresas viraram fábricas de fofocas, de fakenews, e de apropriação de dados pessoais para fins comerciais. O Facebook, aliás, começou como um app de fofocas em uma universidade do EUA…

Metaverso é o bonito nome para identificar a vida em mundo paralelos, o real e o artificial, possível graças à tecnologia que criou máquinas que interagem com as pessoas, e que realizam funções que antes dependiam das decisões dessas pessoas para acontecer. Abrir e fechar portas, jogar xadrez, montar automóveis, identificar possíveis namorados, com quem se comunicar, o que comprar, acender luzes… enfim, a Inteligência Artificial. Até onde?

O Facebook e seus pares, que são as empresas de tecnologia, tem respondido a processos que investigam essa concentração. É preciso que se submetam às regras republicanas, decididas pela Política, e não estraguem essa mágica convivência que são as sociedades humanas, ali nos municípios onde se organizam.

Como política, sei que a decisão do voto é mais emocional que racional. Mais pessoa e menos máquina. E, como política municipalista, pude aplicar esse valor quando governei por 4 anos (2007/2010) o estado do Rio Grande do Sul – estado de municípios pequenos e muito organizados, que tem no municipalismo um de seus principais orgulhos. Que rende excelentes resultados no ranking da qualidade de vida dos municípios brasileiros. E no da responsabilidade fiscal também.

Responsabilidade Fiscal mostra o cuidado do governante com o dinheiro público. Só consegui o resultado de reverter o déficit fiscal gaúcho de décadas, que o afundava em dívida impagável, porque todas as políticas públicas – a começar do Planejamento e do Orçamento Geral – foram municipalizadas. Trabalhei com todos os prefeitos e os vereadores, independentemente de partido, que usam o dinheiro público para conseguir os melhores resultados para seu povo.

Voltando ao início, máquina é máquina. Por mais avançada que seja, a máquina não substitui o Ser Humano. A tecnologia, que é invenção deste Ser, pode ajudar a que ele mesmo evolua como pessoa, que possa viver melhor em sociedade, o que só acontece através da convivência livre e respeitosa. Seu uso não pode estar acima do que a sociedade decide serem suas prioridades – como em algumas distopias que trouxeram a máquina do Grande Irmão, como em Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley, 1932), e 1984 (George Orwell, 1948), em plena preparação ou nas experiências concretas do totalitarismo de Stalin, Mussolini, Hitler.

Deve a Política mediar esse embate.

Quem expressa as prioridades do povo é o povo, das mais diversas formas, pelos seus representantes e a vigilância da sociedade organizada. Quem pode tornar reais os desejos manifestados nessas prioridades, a partir do dinheiro público, é o conjunto dos poderes: governantes (políticas púbicas), legisladores (decididas por maioria mas válidas para todos), juízes (julgando a cada caso a aplicação das leis para fins de Justiça). Enfim, pela convivência republicana. Para isso, requer-se um ambiente de liberdade e de democracia.

Sabemos, desde o início dos tempos, que está no município a fonte primeira da convivência humana. Estamos passando por este teste de adaptação ao novo ciclo, o da nova tecnologia, o das mídias sociais, que afeta as relações humanas, desde as do mundo do trabalho até as da relação entre o governante e o governado. Então, não vamos nos dispersar. A pandemia vai passar.

*Foi governadora do Rio Grande do Sul, ministra do Planejamento, deputada federal por quatro mandatos. Atualmente, é presidente do PSDB-Mulher Nacional, do qual é um das fundadoras.

2021-11-22T11:42:00-02:00 13 de novembro de 2021|Tags: , , , , |

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