O passado está de volta, ou a vida é agora

*Por Yeda Crusius

Depois de um rico período de respiro democrático, iniciado nos anos 1990 logo após a queda do Muro de Berlim e a criação da União Europeia, num intenso período de reconstrução e de cooperação, parece que o passado de restrições à liberdade, de aumento dos problemas econômicos como inflação, desemprego e miséria, está de volta.

Foto: reprodução

Músicas como “vivemos como os nossos pais”, imortalizado na voz de Elis na barriga dos anos 1970/1980, depois dos maravilhosos e revolucionários anos 1960, vieram como uma visão negativa de um passado que jovens pretendiam mudar – e não conseguiam.

Já como visão positiva iniciada mesmo antes da pandemia iniciada em 2020, vem a história de pessoas que decidiram viver agora, sair das cidades grandes na esteira do “eu quero uma casa no campo”, em música também imortalizada por Elis, gastar o dinheiro conforme ele chega, não colocar como meta acumular para o futuro, pegar a estrada ou velejar pelo mundo.

De vez em quando se juntam fatores negativos trazendo de volta à memória épocas mais recentes em que eles foram responsáveis por um ciclo que bate na economia e termina no político. Causa muitos estragos. É o caso atual. Os números mostram estarem juntos fenômenos negativos que se poderia considerar como tendo sido controlados. Como na série Walking Deads, voltam para nos assombrar sobrepostos inflação, desemprego, fome, guerra, pestes, ameaça tecnológica – os caleiros do século das guerras, o XX.

Aí não adianta desligar a TV, tem que enfrentar. Já aconteceu antes, não faz muito tempo, mas há os que negam que vivemos uma crise, e há quem, impactado com o tamanho da crise, se pergunte se isso é o Armagedon.

Há bastante tempo se sabe que dinossauros e outras espécies que habitavam a Terra haviam sido extintos em consequência do choque de um desses tantos asteroides que circulam pelo Universo.

A Extinção dos Dinossauros é um evento que intriga muito os cientistas, existem uma série de teorias sobre a realidade do fato, mas até o momento não se chegou a uma resposta definitiva. Os dinossauros foram grandes animais que viveram na Terra durante a Era Mesozóica. Essas criaturas dominaram o planeta por aproximadamente 160 milhões de anos, foram os maiores animais já registrados na história. Próximo ao fim do período Cretáceo, algo aconteceu para eliminar esses animais do planeta, há cerca de 65 milhões de anos.

Ciência e tecnologia mudaram o tamanho dos desastres, como a vacina que permitiu baixar de 50 milhões, quando a população mundial era várias menor que a atual, para a peste espanhola dos anos 1920, para os 6 milhões para o coronavírus dos anos 2020, quando a população já passa dos 7 bilhões.

“A população mundial atingiu a marca de 1 bilhão de pessoas em 1800. Na época, as condições sanitárias eram precárias se compararmos com as atuais, e esse número foi assustador, uma vez que perspectivas pessimistas foram criadas em torno do alto número de habitantes no planeta, como a teoria de Thomas Malthus. Com o passar do tempo e as evoluções científicas e tecnológicas, a população mundial continuou crescendo, chegando a 7 bilhões em 2011 e, em 2020, a 7,8 bilhões.”

https://brasilescola.uol.com.br/geografia/populacao-mundial.htm

Mas nem se precisa ficar vigiando os céus tentando localizar asteroides gigantes. Há frutos da C&T que, sim, podem causar extinção. Como uma guerra se detonada por armas nucleares. Não a tecnologia em si, mas nas mãos de um maluco que a pode detonar.

A Bíblia foi escrita antes da bomba atômica, mas há um capítulo nela que descreve o Fim do Mundo, o qual viria por 4 atores chamados de Os Cavaleiros do Apocalipse. Fiéis àquela palavra escrita em outros tempos há quem esteja à espera de que, depois do Armagedon, chegará um tempo eterno de paz, fartura, não haverá doenças ou morte, no paraíso da vida eterna (www.respostas.com.br). Esses são os otimistas. Descerá à Terra um Salvador, cavaleiro montado num cavalo branco. Ele vencerá os outros cavaleiros, montados em seus cavalos cor de fogo (guerras), preto (fome), sem cor (morte/epidemias). Portadores de suas espadas e cavalgando seus cavalos de batalha, estavam os senhores da guerra eterna, a guerra entre o Bem e o Mal. Os Extremos.

Em todas as formas de arte essa guerra tem sido representada desde o princípio dos tempos. Exemplo é a recente série épica Guerra nas Estrelas, iniciada nos anos 1970, com cada um dos 2 lados, o do Bem e o do Mal, portando as espadas de cores diferentes. Mas são muitas e muitas as obras, criadas por quem interpreta o presente e busca no passado o que pode ser o nosso futuro. Autores que tratam, através de suas criações, sobre o que é a realidade da Humanidade. Livros, filmes, telas, poesias, músicas, todas as formas de arte, versando sobre esta luta na Terra, sem fim. A luta entre o Bem e o Mal.

Fora da arte, de tempos em tempos vemos o nascimento, crescimento e, felizmente, morte de homens que se julgam Deus, senhores da vida e da morte. Ao fim, são apenas os deuses da guerra. Causam um estrago danado.

Até prova em contrário, não existe vida eterna. Então, vamos ficar com a nossa (sempre breve) vida terrena. Esses fatores citados ao início dessa conversa são variáveis utilizadas para descrever os ciclos históricos. Na História da Humanidade, repetem-se ciclos que definem as eras. Eu, fascinada por História, quis conversar com os alunos de Macroeconomia na Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS, nos idos dos anos 1980, sobre porque os preços estavam subindo tanto, ou como cresciam o desemprego e a recessão se até há pouco estávamos vivendo o “milagre econômico” da década dos 1970. Só os complexos modelos matemáticos da Macroeconomia eram insuficientes. Havia urgência em saber porque o salário derretia e tanta gente estava sem salário. O que fazer para se defender? A quem competia atacar esses males?

Só conhecendo o que causa a hiperinflação se pode ataca-la com sucesso. Certos de que tinham a espada da cor correta, foram decretados choques econômicos pelo Governo Federal, com a troca da moeda nacional, congelamento de preços, etc etc (fonte).  Provou-se que não era assim tão fácil. Era preciso um acordo com todos, um acordo social, e esse foi o Plano Real dos anos 1990. Era preciso também entender porque o milagre do crescimento cessara, porque a instabilidade.

Pedi ao departamento da FCE para oferecer uma disciplina nova, sobre ciclos econômicos, esses que a História registra e a Economia explica bem. Dei a disciplina por alguns semestres. Na primeira aula desenhava com um giz no quadro negro – que era verde, um círculo, e depois o abria em outra figura, uma reta representando a linha do tempo, e sobre ela uma curva que subia e descia, em 4 fases: crescimento até um pico, recessão até o piso da depressão, recuperação cortando a linha para cima e voltando ao crescimento, e assim repetitivamente. Desde o término da II Grande Guerra, a tendência foi de crescimento contínuo, e vertiginoso, com taxas anuais do PIB como as do “milagre econômico” de mais de 10%.

A linha de tendência, naqueles tempos, era para cima porque o mundo crescia, o Brasil crescia. Afinal, a Nova Ordem Econômica internacional promovia a reconstrução pós-guerra em tempos de cooperação econômica. Mas em ciclos. Ciclos longos (Kondratiev, ciclos de 50 anos), em que muda a base tecnológica (Revoluções Industriais), os ciclos curtos de negócios (Schumpeter), os ciclos lunares (agricultura).

Posso aplicar o mesmo raciocínio para descrever os ciclos políticos, que acompanham essa história toda. Para acompanhar um mundo em transformação, as instituições que servem a um tempo se tornam obsoletas para dar conta do novo momento. Assim é com os partidos políticos. O PSDB, por exemplo, nasceu em 1988, na esteira da Constituinte. Vamos lembrar que uma Constituição define um arcabouço de Estado, define suas instituições, reza pelos seus objetivos. Pudemos então liderar a transformação do país a partir da política, e das políticas governamentais pela escolha da via das reformas, inclusive constitucionais – e não pela via revolucionária dos dois extremos do espectro político.

Hoje, quando a inflação, as desigualdades, e o desemprego estão de volta, não temos sido os escolhidos para formar o governo que combata esses grandes males que catapultam as desigualdades, que causam miséria, que alimentam os deuses da guerra. Fadiga de material? Erros? Ou a realidade de um novo ciclo, da urgente mudança das e nas instituições que mediam dentro de uma ordem os conflitos na sua base?

O passado está de volta, não? Quem vai mediar a busca pelas políticas que nos liberarão desses males? É claro que os antigos mediadores, como o sistema partidário, deixam a desejar. Não está de volta apenas a inflação, o desemprego, a miséria, atacadas pelo Plano Real do PSDB nos governos FHC. Está de volta a polarização pelos extremos. Saltam à nossa frente, para nossa tristeza, as estatísticas das mortes causadas por uma nova guerra na destrutiva e cruel invasão Ucrânia pela Rússia.

Voltam as estatísticas de crescimento do contágio e mortes pelo coronavírus transmutado. Volta o noticiário às estatísticas dos mortos nos massacres, o de crianças na escola da cidadezinha do Texas, e na operação da polícia no Rio de Janeiro. Sobre essas estatísticas se sobrepõe as da volta do crescimento do desmatamento na Amazônia. E nos chegam outras notícias, que tocam o nosso coração no diapasão emocional, como a da morte por acidente de Jesse Kox com seu golden Shurastey, a do veto do presidente ao título para a psiquiatra Nise da Silveira, a da morte de David Coimbra.

Porque é ano eleitoral, voltam também as estatísticas de pesquisas sequenciais sobre intenção de voto, e lá está nos espreitando a possibilidade de repetição da escolha apenas entre extremos, que tem arrastado o Brasil para longe do caminho de crescimento, da sustentabilidade, da inclusão. Nos extremos está a não-opção por uma terceira via, a do caminho do meio, numa clara opção pela guerra e não pela cooperação.

É por tudo isso e muito mais que busco entender o sentimento de mal-estar geral dos tempos que vivemos. É muita coisa negativa, e me volta a figura do ciclo, na esperança de que estejamos vivendo o fim de um, lá no piso dos 270°, na fase da “recessão saneadora” do Schumpeter, quando se poda o que está podre para dar lugar a uma fase de florescimento – como já vivemos antes.

Agora, na década de 2020, há um novo fator, de natureza tecnológica. Nos perguntamos se o uso dessas fascinantes invenções pela mesma Humanidade que as criou não pode ser classificado como uma nova peste: a que desumaniza as sociedades pelo avanço da Internet 5.0 (IA), seus donos, e suas realidades paralelas. Engenheiros do caos, rupturas, Fake News. Ameaçam de morte as democracias liberais, conquista da consciência da capacidade destrutiva das grandes guerras.

Vamos lá com a pergunta: invenções que foram vistas como criadoras de liberdade via comunicação podem ser o velho “criador contra a criatura”? Pode se transformar em um instrumento de controle, de repressão e de violência ameaçando o que há de humano nas sociedades?

Essa é a pergunta que fica para a próxima conversa. O importante é que entremos num acordo: eles estão de volta. Com a novidade da Internet 5.0. O que fazer?

Intervalo para arrumar o script.

Até amanhã.

*Yeda Crusius é presidente do PSDB-Mulher Nacional, governou o Rio Grande do Sul, foi ministra do Planejamento e deputada federal por quatro mandatos.

Data do Artigo: 30/05/2022

2022-05-31T17:49:05-03:00 30 de maio de 2022|Tags: , , |

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