O mundo de ontem “já era”…

por Fernão

Nem volta ao passado, como pretendia Putin, nem “freio de arrumação” como sugere o ditado. Tudo se parece mais com o violento chacoalhão para frente de uma súbita arrancada da integração da humanidade para um outro patamar de velocidade. 

O modo como cada nação se vê e é vista pelos outros”, disse um observador inglês, “é que é a matéria prima da evolução, um processo lento e gradual onde as camadas se vão assentando uma a uma. Mas a guerra de Putin mudou coisas muito profundas em pouco mais de uma semana”. Yuval Harari vai na mesma direção. “Essa guerra tem o potencial de acabar com a guerra cultural. A humanidade se deu conta, de repente, de que liberdade, autodeterminação ou não, é a única escolha real”.

Depois de anos contemplando e lambendo a própria “decadência”, o Ocidente redescobriu coisas como orgulho e razão de ser. Depois de décadas esmiuçando seus próprios fracassos ele foi posto, de repente, frente a frente com a alternativa concreta para o seu modelo de liberdade e democracia. 

A determinação da Ucrânia não é a de quem tem dúvidas filosóficas a respeito de teorias conflitantes, é a de quem experimentou na carne viva uma coisa e a outra e prefere morrer lutando a voltar ao passado soviético. Volodymyr Zelensky levanta-se formidável, inspirando seu povo contra Putin e suas bombas atômicas, armado tão somente de uma atitude moral num mundo amoral. Um herói numa era de anti-heróis.

A humanidade estava com saudades disso!

E então foi como um tsunami. Nem uma união de interesses mesquinhos focados na luta pelo dinheiro, nem uma quase ocupação estrangeira resultando na perda de um pouco de soberania por cada um. A União Européia voltou a ser, num átimo, o esforço comum de povos envolvidos em duas guerras monstruosas no espaço de 30 anos, para compartilhar sua soberania em vez de seguir matando por ela. Uma iniciativa com foco na segurança e na paz. Em menos de 10 dias a NATO deixou de ser um anacronismo da guerra fria para voltar, incontestavelmente, a ser o recurso inventado para defender-se de agressões que sempre foi desde que foi criada e continuou sendo enquanto existiu.

Quem está fora da unanimidade planetária que a resistência da Ucrânia cristalizou? 

Nem a “esquerda”, nem a “direita” civilizadas que, cada vez mais, distanciam-se por milímetros. A anti-humanidade. A anti-democracia, tão somente. A convicta e a disfarçada. As mentiras todas transformaram-se em pó. O que têm os BRICS em comum senão a ausência de democracia? É por isso, aliás, que são só BRICS e não países ricos. Apesar de terem tudo o mais que se requer para sê-lo – extensão territorial, recursos naturais, tamanho de mercado – são imunodeficientes à corrupção sistêmica e à subjugação de suas populações por privilegiaturas, para as quais democracia é o único remédio conhecido.

A Russia sempre foi o campeão dessa modalidade. Um monopólio férreo de poder e riqueza no topo da pirâmide cercado de miséria por todos os lados. Isso nunca mudou, nem sob os czares brancos, nem sob os czares vermelhos, nem sob o czar marrom. 

Muito antes do que seria de se esperar, uma imprensa ocidental que ia numa perigosa ordem unida de volta à justificação da censura, mãe de todas as ditaduras e de todos os horrores, viu esse mesmo discurso surgir na boca do celerado Putin antes que tivéssemos de esperar, em ritmo de evolução, a lenta mudança da maré do poder que invariavelmente confirma, ao longo da História, que essa classe de feitiço volta-se SEMPRE contra o feiticeiro.

O fato veio para confirmar o quanto isso é velho. A fantasia que o Ocidente criou em trono dos czares vermelhos é do Ocidente só. O povo russo nunca a viveu. Exorcizado e devidamente punido e banido o nazismo, nenhuma voz se ergueu contra esta nova Alemanha que envia armas aos ucranianos e dobra o seu orçamento militar para defender-se – e à toda a Europa – do agressor que só pôde continuar sonhando livremente com seu império perdido porque o totalitarismo comunista continua valendo-se de uma chancela moral que nunca mereceu. Porque ainda ha, dentro e fora da Russia, quem considere os stalins heróis e possa cultuá-los impunemente. Porque ainda há, na periferia do Ocidente, quem acredite com alguma razão de ser, que pode eleger-se com esse discurso.

Raça, gênero, polícias do pensamento, a irrefreada ditadura da maioria que Tocqueville previu, e mesmo esse esforço todo para manter a covid mais viva do que está… Quanto disso, quanto da famigerada “guerra cultural” não é filha do tédio? A humanidade é mesmo capaz de viver na plenitude, sem uma ameaça imediata e palpável contra a continuação da sua aventura na Terra que lhe tome o tempo que adora gastar fabricando fantasmas? Estariam as Américas longe demais para aprender a lição que a Europa aprendeu?

Ha sinais controvertidos vindos da Ucrânia. Quem está contendo a violência toda de que Putin é materialmente capaz, além do heroísmo dos ucranianos? A China? Essa “humanidade civil” que, em toda parte, extrapolou os governos e materializa os boicotes e até as tomadas de posição na ONU à revelia deles? Os próprios russos?

Difícil dizer… 

Mas uma coisa é certa. Este mundo de hoje não é mais o mesmo de ontem. Talvez nunca tenha sido e a Ucrânia apenas desenterrou da desinformação o que sempre esteve aí. Mas o certo é que, verdadeiro ou falso, aquele de ontem nós nunca mais voltaremos a ser.

por Fernão

2022-03-08T15:02:59-03:00 8 de março de 2022|

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