Licença para viver

Concordamos que vivemos essa sensação de mal estar na civilização, descrita por Freud no seu tempo (1856/1939), derivada do choque entre o indivíduo e a sociedade que ele mesmo cria. Como pode o solitário indivíduo entender o porque dessa sensação para, ao entender, achar o modo de se livrar desse mal estar?

No sumário dessa discussão, a possibilidade de robôs ganharem inteligência, mas não humanidade, e passarem a controlar o Homem, seu criador. Mas vamos por partes.

Tive algumas crises de pânico, já adulta. Não se falava sobre isso, sobre a epidemia de ansiedade que crescia no mundo, não se conhecia muito disso. A primeira foi quando, no final dos anos 1980, depois de assaltada sob a mira de dois revólveres entrando no carro em plena luz do dia, tentei dirigir de novo. As outras  3 vezes em que tive aquela sensação de taquidardia, secura na boca, paralisação dos movimentos, aconteceram não muito depois do assalto, quando eu estava a trabalho em outros países (EUA e Europa) que falavam outra língua, que eu dominava. Surtei em pânico com a sensação instantânea de que não conseguiria me comunicar, apresentar o meu trabalho. Precisei encarar aquela nada agradável novidade, e não foi fácil. Fui atrás de entender o porque do pânico. Terapia, muita conversa e pesquisa. Voltei a dirigir, com mais cuidado, de modo um pouco diferente. E voltei a viajar para países, falando as outras línguas.

Para mim, ficou claro que, a exemplo de alguns pesadelos, a paralisia vem de não conseguir me comunicar, me conectar com O Outro, perdendo a relação que se dá pelo convívio entre seres vivos.

Quem sabe por essa experiência quando me sinto impedida de ser, fictícia ou realmente, enfrento e comunico, derrubo o muro colocado pela cultura. Assim dei-me bem ao longo da vida pelas diversas formas de comunicação. Fui professora, trabalhei em jornais, rádio, TV, fui palestrante por décadas. Mais tarde, fui parlamentar e governadora – e a política, principalmente pela via eleitoral, requer construção de maiorias, de consensos, para as mais diversas propostas que a sociedade requer serem realizados. Conversas, diálogo, democracia. Livre dos impedimentos, sou uma comunicadora.

Para mim essa sensação de mal-estar vem da incomunicabilidade presente na cultura dos nossos dias. No modo de vida da Era da Internet, há algo que trava. Que impede. Que proíbe. Que isola. Creio, inclusive, que esse é um fator dominante no Mal Estar na Civilização, seguindo Freud. Falta verdade à comunicação.

A pandemia desde 2020 amplificou o isolamento das pessoas nas cidades muitas praticam e praticaram “lockdown”. O que é isso, perguntam-se os nativos do português. Aprendem na prática: não saia de casa. Proibido quase tudo. Famílias separadas, aeroportos, transportes, bares, ruas e fronteiras, fechadas ou vazias. Cenas de enterros aos milhares sem velório. Um drone, na China, vigia cada pessoa que sai de casa, gritando “volte para casa” – com exceção para quem prova estar indo à farmácia ou ao mercado mais próximo. Drones, como sabemos, são comandados de longe. Não é por menos o crescimento como epidemia das doenças mentais e sociais.

O “cidadão” precisa cada vez mais de licenças para fazer qualquer coisa. Se não tem a tal licença, é impedido de fazer. E quem tem a autoridade para dar essa licença é o tal de Estado. Prefeitura. Justiça. Governo Estadual. Receita Federal. Médico para dar a receita do remédio de que preciso. Departamento de Trânsito para eu poder dirigir. Polícia Civil para a carteira de identidade. Polícia Federal para ter meu passaporte e passar a fronteira, agentes da autoridade de um lado, depois do outro. Exemplos sem fim. Escreveu e não leu, interdita-se o cidadão.

Só que agora, paga-se também por serviços concedidos pelo setor público para empresas privadas fornecerem o serviço que era o setor público que dava, com a obrigação de serviço público pelo qual pago impostos. Se fornecem maus serviços, sobra ir à Justiça. A pessoa é um número, um código, um CPF, necessário para abrir cada porta. Senhas. Mesmo se usa o celular, para comprar ou acessar um informação, é “digite seu CPF”. Andam até facilitando, incluindo nos APPs o reconhecimento de voz e facial para que a máquina “obedeça” seu dono. Sensores. Internet 5.0.. Inteligência Artificial.

A empresa cobra novas taxas, além dos impostos que já pago, exigindo “digite sua senha”, tecle 4 para…”, “não está no contrato”, “aguarde um atendente” – por horas… E nos coloca a falar com robôs. O temporal nos deixa sem luz, e não adianta reclamar nem pro bispo. Liga-se a TV e por ela sim, a mediadora de tudo, a mídia, o cidadão fica sabendo porque ou quando vai voltar.

Em nome da segurança – que desejamos ardentemente sim – para entrar num prédio de serviços há que mostrar a identidade. Até já aceitam se a pessoa souber o número de cor. Da identidade. Ou do CPF. O trabalhador de alguma empresa do prédio (edifício), para entrar deve colocar a sua digital. Ou aproxima a íris. A máquina reconhece.

Cidadão quem?

Sou de uma geração que gosta de falar com as pessoas. E não com as máquinas. Máquinas foram feitas para melhorar a vida, mas as coisas estão de tal maneira que decidem o que posso ou não. Usam um dialeto frio que deconheço. Quase tudo tem nome em inglês, e não há significado para palavras como “bluetooth”, que no carro serve para ligar o motorista ao mundo das comunicações.

Quando tem motorista.

Para entender aquela festa bonita na beira do Guaíba, a South Summit, e muito do que nas dezenas de palestrantes falaram, tem que ter todo um agregado do dicionário em inglês. Sem saber o dialeto que é usado em tudo o que implica em inovações, o cidadão está excluído…

Com meu espírito um tanto libertário, sinto-me algo deslocada dessa sociedade tecnológica em que o Estado só faz crescer. Ela me causa um certo mal estar. Se não se entende a língua, sobe o muro da incomunicabilidade. Só que estamos enredados pela sociedade das comunicações. Ficou mais claro durante a pandemia.

Quer aulas? Escolas fechadas. EAD. Quem tem os equipamentos, em casa e nas escolas, conseguiu não retroceder tanto no aprendizado. Das creches à Universidade, um imenso retrocesso. Principalmente no Português e na Matemática, linguagens básicas. Nenhuma surpresa. O português é como nos conectamos entre seres vivos no solo brasileiro. Em qualquer parte do imenso solo brasileiro. Tem que ser ensinado desde o nascimento, primeira infância, vida toda. Pode até ser fora da escola – mas na escola aprendemos com O Outro. Com a troca que o convívio propicia.

Quer continuar a fazer o seu trabalho? “Homeworking”.

Quer marcar uma consulta? Exceto para o que se relaciona ao vírus, “todas as consultas estão suspensas” não importa que a doença cresça. As emergências passaram a atender aos doentes pelo vírus. Que matou por contágio 7 milhões de pessoas em todo o mundo. Até a chegada da vacina, o isollamento se impôs. E hoje, precisa de uma consulta? Entre no sistema de regulação.

Quer alimentar-se? Chame um “dellivery”. Só não pague com dinheiro vivo. Dinheiro agora é virtual, pelo cartão, ou pelo celular com um pix. E para pagar com pix, escolha suas “chaves”. CPF. Identidade. Número de celular. Tudo sob licença.

Só que quem entrega é uma pessoa na bicicleta, um motoqueiro, um furgão de alguma das mega empresas de entregas em casa. Vem de um CD, em poucos dias, de qualquer parte do mundo…

A Humanidade, no permanente perguntar-se pelo sentido da vida, recorre a mitos e deuses, organiza-se em religiões, cria pela arte.

Na prática do dia-a-dia, alguns se colocam dentro de uma realidade particular, paralela, e tentam ser deuses. É uma minoria bem barulhenta. Mas vamos falar de uma maioria, aquela que vive agindo e interagindo na sociedade como ela é, em eterno movimento.

A realidade virtual, a Inteligência Artificial, e o vertiginoso crescimento das redes sociais, assombram o mundo com a possibilidade de estarmos sendo vigiados e controlados pelo Grande Irmão, como Orwell expressou-se no seu livro 1984, escrito em 1947, logo depois dos horrores das I e II Grandes Guerras, promovidas por homens que se julgavam deuses, que organizaram em vários países da Europa as sociedades totalitárias. O fascismo do italiano Benito Mussolini (1883/1945), o nazismo do alemão Adolph Hitler (1889/1945), o comunismo do russo Joseph Stalin (1878/1953).

Os senhores da guerra. Mussolini e Hitler perderam a guerra, morrendo ao final dela. Stalin foi vencedor, morrendo de causas naturais, mas deixando de legado a União Soviética, bloco líder do comunismo na Guerra Fria. O outro bloco, o do capitalismo, foi liderado por outro país vencedor, os Estados Unidos – que em 1945 colocou a pá-de-cal na guerra deflagrando a bomba atômica, nova arma tecnológica, sobre o Japão. Esses ídolos do passado ainda fascinam alguns ainda hoje. Perigo. Manipulando esse mal estar, podem tentar recriar o passado com outra roupagem. Por extremos.

São muitas as ideias sobre o tempo presente. ZygmuntBauman (1925/2017), filósofo e sociólogo polonês, adotou um conceito que chamou de “modernidade líquida” para uma significativa mudança nas relações sociais entre indivíduos em tempos de Internet.

As relações escorrem pelo vão dos dedos. Segundo o seu conceito de “relações líquidas”, em Amor Líquido, as relações amorosas deixam de ter aspecto de união e passam a ser mero acúmulo de experiências. A insegurança seria parte estrutural da constituição do sujeito pós-moderno, conforme escreve em Medo Líquido. Enquanto muitos cientistas, poetas e artistas da mainstream empenham-se na exaltação das virtudes do mercado e suas criações, o mundo caminha com o consumo demasiado acarretando a degradação ambiental, a face desumana do capitalismo moderno. O sujeito torna-se apenas o que ele consome, e não mais o que ele é. Na lógica da modernidade líquida, o sujeito é aquilo que ele consome, refletindo a insignificância humana. (wikipedia)

“A máquina” vai entrando na vida de todos, distanciando-o indivíduo da natureza e do Outro, não deixando muito espaço para alguma outra escolha. Se por um lado novos produtos da tecnologia aliviam o ser humano do trabalho braçal – o que é bom, eles também nos distanciam nas relações e no contato com o Outro e com a natureza – o que é mau.

 O usuário do celular, saiba ou não, a cada “conversa” que tem com a máquina, fornece a uma bigtech todos os seus dados, que são usados como bem entenderem os donos do Google, do Whatsapp, do FaceBook, do Instagram, do Twitter. Os senhores da comunicação. Com as poderosas ferramentas de que dispõem “as máquinas” da Era da Internet 5.0, elas passam a conhecer melhor a pessoa do que a própria pessoa, porque processam as informações numa velocidade que nenhum humano é capaz de fazer. Com isso inclusive conduzem o voto. São as empresas (e seus donos) que comandam o uso que as máquinas fazem das informações que lhes passamos.

Metaverso. Matrix. Ruptura. Realidades paralelas. Ficção. Engenheiros do Caos. Negativo e sombrio. Por isso é tão bem vinda a coluna de Fernando Schüller, com o atrativo título “A Arte da Vida – O desejo humano: pandemia fez urgente o que era distante” (Veja, 22/05/2022). Na linha do artigo, diante desse mal estar, indivíduos escolhem o que Jesse Kox escolheu: pegar a estrada. Mas precisa de licenças, o preço do Estado. Milhões de brasileiros vão morar em outro país, ou retornam ao campo. Com a pandemia, o que era latente passou a ser urgente. Nada de esperar a aposentadoria: viver AGORA.

O dinheiro também foi uma criação humana, a princípio para facilitar as trocas. Mas pode ser uma arma de dominação. Entende-se a genial criação das criptomoedas, como o bitcoin, na sua intenção libertária.

Quando a política vira instrumento com o viés de conquistar o Poder pelo Poder, mirando o dinheiro e, através do dinheiro, mais poder, mostra a pequenez que desvela a fase atual. A pequena política tem vetado a possibilidade de termos uma opção quando o ciclo político nos vai nos colocando apenas duas opções, as de extremos, sufocando as democracias e alimentando autoritarismos.

Não bastasse os maus passos dados pelas elites políticas, um fruto delas nos choca, trazido pelas notícias em tempo real transmitidas pela internet das comunicações. No Texas um jovem de 18 anos, com 2 rifles recém comprados porque a lei lá permite livre acesso de adultos a qualquer arma, entra numa escola de crianças de 2ª à 4ª série, portanto com menos de 12 anos, escola onde havia estudado, mata mais de 20 crianças e 3 adultos. Por que os políticos não mudam as regras que permitem o acesso a armas indiscriminadamente, em nome de uma liberdade que só vale para armas, mas não existe para dirigir, construir a casa, e tudo o mais que depende de licença do estado?

Sei que a História não tem fim. E que só se repete como farsa. Pelas perdas, que tem sido muitas, se requer o tempo do luto, a introspecção. Depois… bem, depois, a luta continua. Porque não desejamos Licença para Matar – para essa basta o filme do 007. Podemos ser as autoridades emissoras dessa nova licença: a Licença para Viver. Até breve.

*por Yeda Crusius – Presidente do PSDB-Mulher Nacional, governou o Rio Grande do Sul, foi ministra do Planejamento e deputada federal por quatro mandatos.

2022-05-31T18:09:45-03:00 31 de maio de 2022|Tags: , , , , |

Deixe um Comentário