Lázaros e as raízes ancestrais da violência

*Por Yeda Crusius

Até ontem, a caçada ao mais recente serial killer de mulheres do país continuava. Driblando a força-tarefa policial, com cobertura da imprensa, continuava escapando. Solto da prisão onde deveria continuar pagando por crimes já cometidos, graças a um sistema de justiça todo disfuncional, continuou na sua triste sina de matador de mulheres. A neurociência já conhece o cérebro e o comportamento dos psicopatas, enquanto que a sociedade ainda não deu conta de enfrentar tais monstros, evitando a repetição dos assassinatos previsíveis, com as instituições que a política nos permitiu criar.

Lázaro é um homem frio, metódico, calculista. Oferece, portanto, perigo à sociedade toda, agindo através do assassinato em série que pratica contra mulheres. Não deveria estar livre. Falham as instituições quando isto não acontece, com esse Lázaro e tantos outros que cometem crimes em série, como o médico Cairo Barbosa, de Canguçú, o caso mais recente de serial harrasment. Preso recentemente, é provável que não seja solto, como tantos outros que já cometeram esse tipo de crime de violência sexual.

Digo que os dois oferecem perigo a toda a sociedade porque a próxima vítima, mulher, será a filha de um homem, a esposa de um homem, a mãe ou sobrinha ou vizinha de um homem. Os casos dos monstros Lázaro e Cairo se constituem no campo de crimes que pela divisão presente em nossa sociedade tem sido ideologicamente negado por um dos lados, e que chamamos questão de gênero.

A violência que caracteriza a sociedade dos nossos tempos se volta concentradamente sobre os mais vulneráveis, os mais frágeis: crianças, mulheres, dentre destas as negras, gays, velhos, pobres.  Mas essa característica não é recente. Apesar de todo o desenvolvimento como o da neurociência, e do sistema judiciário, vem de muito longe. Tem raízes ancestrais. As razões, tão bem analisadas no livro de 1987 de Raiane Eisler, O Cálice e a Espada, tem raízes antropológicas, políticas e sociais que caracterizam a sociedade patriarcal, simbolizada pela espada. Seu enfrentamento exige Democracia e Igualdade, simbolizadas pelo cálice. Conceito hoje colocado no centro do debate político, a democracia vai além da política, mas sem ela não caminhará, a não ser na direção de uma sociedade ainda mais desigual e violenta.

 Data do Artigo: 21/06/2021

2021-06-21T20:52:00-03:00 21 de junho de 2021|

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