Éramos Seis. (O livro. A novela). Quantos somos hoje. (A estatística)

A nova novela das seis, com seu título, lembra-me de livro que tínhamos que ler para o colégio. Em casa éramos seis irmãos, uma família típica da capital paulista, efervescendo dos anos 1950. Casa aberta, sempre cheia, música e livros, liberdade de andar nas ruas do bairro Vila Mariana. Mas não gostei do livro, era melancólico. A novela vai mostrar. Porque ela, a esposa, a mãe, acaba sozinha numa casa de acolhimento de freiras para mulheres idosas.

Lembra alguma coisa do mundo de hoje? O mundo que contrapõe jovens, que respiram o futuro, e velhos, que lutam pela aposentadoria que rescende a passado. No Brasil, finalmente foi aprovada ontem a Reforma da Previdência, capítulo n, que muda um sistema que não se financia mais. No Chile, em uma semana 15 mortos em protestos aparentemente porque houve um aumento de 8% nas tarifas de metrô. Mas certamente as razões vão muito além: a necessidade de reformas nos sistemas em vigor para aposentadorias, educação e saúde, implementados nos tempos do regime militar dos anos 1960/1970, sistemas que fizeram do Chile uma economia diferente da América Latina, afundada permanentemente em dívidas e instabilidades.

Reformar, nos dois casos, é preciso. Para que não se faça uma revolução, diriam alguns. Reformar para preservar conquistas, ou direitos, com o de-safio de permitir o acesso a eles – ou seja, o desafio financiar de modo sustentável a dignidade.

Bem, eu não gostei do livro. A foto dos seis irmãos mostra as crianças felizes que éramos. Crianças felizes não gostam de ser apresentadas a um futuro tão triste que entristece o seu presente feliz. Como no livro, nós irmãos sumiríamos na roda da vida? Minha mãe acabaria assim? Bem, não acabou. Mas quantas mães e pais estão tendo esse caminho, modernamente chamados de clínicas – antes asilos – ou residenciais de idosos, no país onde o bônus demográfico está terminando, com a pirâmide etária se invertendo? Deve o Estado ou a família responder pelo cuidado para com os mais velhos, e que com o avanço da medicina e do modo de vida vão tendo uma crescente expectativa de vida?

No Rio Grande do Sul alcançamos neste ano uma realidade prevista há tempos: já existem mais pessoas com mais de 60 anos do que jovens até 24. Como sustentar esse peso? Fora do romance, e da novela, o que se tem que enfrentar é a realidade que as estatísticas jogam à nossa frente. E buscar entender como é que elas foram geradas.

Como financiar uma qualidade digna de vida para os que ficam velhos, e já tiveram seu ciclo como pessoas produtivas? Assistência ou previdência social?

Ao mesmo tempo, e não menos importante, como gerar oportunidades para os jovens se realizarem num mundo aberto como o nosso, o mundo da tecnologia 4.0?

Tarefa para todos que buscamos reduzir o fosso entre o “nós” e o “eles” da radicalização das sociedades de nosso tempo. E para podermos escrever um livro com menos violência, menos melancolia.

* Yeda Crusius é presidente Nacional do PSDB-Mulher. Ministra do Planejamento no governo Itamar Franco (1993), Governadora do RS (2007/2010), Deputada Federal por quatro mandatos.

Data do Artigo: 23/10/2019

2019-11-07T13:56:29-02:00 23 de outubro de 2019|

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