A vida dos que não sabem se voltam para casa

Crédito da foto: George Gianni

Nós, mulheres, os ouvimos quando estão no nosso ventre. Depois de nascidos, os ouvem primeiro os de casa, logo após os das creches e escolas, quando já aprenderam a falar e vão aprendendo a se expressar das mais diversas maneiras – e são essas diversas maneiras que vão além do falar. Precisamos aprender a “ouvir”, a nossas crianças e jovens, para os quais já está incorporada a noção de que podem não voltar para casa devido à epidemia de violência que grassa pelo país – e pelo mundo, segundo os noticiários que se sucedem pelas horas do dia.

O ser política é, para mim, a representação dos que não tem voz nas grandes decisões, aquelas que, paradoxalmente, são as que mais impactam suas vidas, e que estão sob nossa responsabilidade de políticos tomar. Meu foco sempre foi tomar o pulso dessa parcela da população, seja pelas estatísticas, seja em sala de aula, seja buscando saber como vivem, como pensam, o que desejam. E o que não desejam, o que querem mudar nessas que são as circunstâncias que tornam suas vidas mais incertas, mais perigosas, menos alegres.

Se todos, crianças e jovens estivessem na escola diariamente, e ali encontrassem um local seguro para aprenderem e viverem de forma integral, interagindo com os das casas onde vivem – como quis fazer o Bolsa Escola do prefeito Grama e depois do Ministro Paulo Renato – meio caminho já estaria andado, e o tráfico não as aliciaria nas ruas. Não tem sido assim.

Nada me aflige e preocupa mais do que o aumento da violência principalmente nas periferias das grandes cidades, onde são mortas, todos os dias, crianças e jovens que saem de suas casas para brincar, estudar, trabalhar ou fazer compras e simplesmente não voltam. Vidas interrompidas em um desperdício de talento e sonhos. Cada morte mata um pouco do futuro do Brasil. O país está em guerra urbana e são nossos jovens os grandes perdedores. Se continuar assim seremos, mais cedo do que a tendência etária normal apontaria, uma nação de velhos, como tenho alertado desde a minha primeira campanha à prefeitura de Porto Alegre em 1996, quando expus a triste realidade: no RS nascem mais meninos que meninas, mas ao chegar à faixa dos 25 anos, essa realidade se inverte. Brutal. É preciso agir rapidamente, para interromper essa escalada insana, com políticas públicas integradas, que tratem o ambiente em que a violência está instalada de modo completo, não apenas com repressão.

Ouvir é o primeiro passo para transformar a realidade

Quando governadora, convidei jovens das comunidades mais afetadas para atuar como agentes da paz, em uma das ações que compunham meu PPV – Plano de Prevenção à Violência, com resultados extremamente positivos. É importante que jovens adultos como Patrick Batista, morador de Satuba, a 22 km de Maceió, que aos 19 anos já perdeu a conta dos amigos que perdeu assassinados por envolvimento com o tráfico, participem para tornar saudável e seguro o ambiente em que vivem. E que moças como Nayara Moreira, 20, digam o que acham ser preciso para voltar a caminhar tranquilas pelas ruas de Eusébio, em Pernambuco, sem medo da truculência da polícia. Esforço conjunto pelo bem comum.

Durante um só fim de semana, no Rio de Janeiro, mãe e filha morreram tentando proteger uma à outra em meio a um tiroteio entre policiais e traficantes e, pouco depois, uma grávida de nove meses foi baleada em confronto exatamente igual. Duas balas atingiram seu bebê, que luta pela vida. Situações extremas. Não é natural mãe e filha morrerem no mesmo dia, a não ser em catástrofes. Um bebê prestes a nascer deveria estar seguro no ventre da mãe, é a Lei da Vida. Um passo fundamental para transformar a realidade em que vivem – e morrem – estas pessoas é conhecê-la, e ouvir os jovens é confirmar que estamos perdendo muitos, e muitos para o tráfico, que substitui o Estado principalmente nas comunidades mais carentes. E então agir para podermos construir o mundo que sugerem, que desejam, e para que bebês possam nascer em um Brasil que seja bom de se viver.

* Yeda Crusius é economista e deputada federal pelo PSDB/RS em seu quarto mandato. Já ocupou os cargos de Ministra do Planejamento e Governadora do RS.

Data do Artigo: 11/07/17

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