A NECESSIDADE DE HUMANIZAR AS SOCIEDADES HUMANAS

Porto Alegre, 01 agosto 2021.

“Português é uma língua difícil”.

(Dizia a professora de línguas no começo da aula em universidade americana a seus alunos, antes de que eles todos passassem a olhar nos celulares que avisavam da chegada de naves extraterrestres, ao vivo. A Chegada).

Citando-a, a que junto a um matemático entendeu a linguagem dos visitantes, primeiro vamos nos entender em português, essa língua difícil, aclarando o significado das palavras do título, aparentemente hermético.

Isso porque quero que nos entendamos, que nos comuniquemos. Senão, como está acontecendo com as conversas no mundo atual, dividido e digital, podemos acabamos numa não-conversa, num monólogo.

Nós, que nascemos seres humanos, e convivemos com milhares de outras comunidades. Criamos, para viver e sobreviver, as sociedades, que são uma forma de viver distinta de comunidades formadas por outros seres. Sociedades são conjuntos de seres que convivem de forma organizada feita de relações e vínculos com interesse comum. Sociedades são feitas de relações conscientes e com regras estabelecidas de comum acordo – e assim entendidas. Para praticar o bem comum. Já as comunidades são conjuntos de seres com articulações orgânicas nascidas de forma natural.

Nascemos seres humanos, mas nosso destino não vem traçado ao nascermos, de forma “natural”. Não nascemos cada qual definido como isto ou aquilo, bons ou maus, bicho ou gente – na linguagem popular. Para convivermos, e mesmo sobrevivermos, é preciso continuamente humanizar a humanidade. O Google nos ajuda a chegar ao significado de humanizar.

Verbo transitivo direto e pronominal, humanizar é “Atribuir caráter humano a; conceder ou possuir condição humana. Tornar-se civilizado; atribuir sociabilidade a; civilizar-se. Tornar benéfico. Fazer com que seja tolerável. Humanizar-se: humanizar um ofício, uma doutrina”. Exemplo 1: a narrativa humaniza os psicopatas. Exemplo 2: algumas entidades espirituais se humanizam na figura do ser humano. Exemplo 3; o governo humaniza-se quando ouve o povo. Exemplo 4: humanizar uma pessoa incivilizada. Exemplo 5: o Papa se humaniza através do convívio com os fiéis.

Defender a vida, dádiva tão misteriosa, exige permanente aprimoramento no convívio social, através de ações conscientes capazes de nos fazer entender, para além das relações construídas, que é preciso ir além do racional, e colocar amorosidade nas relações. É preciso humanizar essas relações. Sem o que, frente a mudanças por vezes assustadoras, nos defendamos uns dos outros, com o risco da sociedade tornar-se algo não civilizado, doentio, agressivo, com sede de morte, com fome de guerra, violento, injusto, sozinho.

Defender a vida é, por exemplo, entender o porque da vacina, essa criação humana que precisa estar em contínuo desenvolvimento, já que os vírus e bactérias, que nos precederam neste planeta, se adaptam a mudanças com uma rapidez que nos é impossível acompanhar de forma “natural”. É o caso da mais recente e devastadora pandemia, causada por uma nova cepa (forma) de coronavírus, que quando nos invadem vão criando por mutação uma nova comunidade esgotando a vida na qual se hospedaram. Nós. E eles sobrevivem.

Defender a vida é, num outro exemplo, entender o meio ambiente e suas contínuas mudanças “naturais”, para que o respeitemos e não o levemos à exaustão – o que significaria nossa própria extinção.

A realidade da pandemia é tão impactante que as reações a ela são as mais diversas. Não há porque, frente a essa nova pandemia, sentar no meio fio e chorar. Há que agir. Agir é uma das possíveis reações à pandemia da Covid-19. Outra reação é negar o fato – aliás, negar é a primeira etapa do luto, processo de diversas etapas que começa com o “não acredito” em relação à perda causada por uma morte que nos tira definitivamente do convívio de um ser amado.

Outra reação é buscar criar a sua própria realidade, a tal de realidade funcional, que serve para que a pessoa não enlouqueça perante algo que não entende, que a assusta, ou mesmo por isso, nega. Nega o vírus, para não encarar a morte, a própria finitude.

Fonte: Getty Images

Outra reação é tentar encobrir a sensação de desamparo frente à própria finitude, frente à morte, criando um mito, um deus, e assim se colocar sob as asas ou martelo ou qualquer ferramenta que o define como deus ou mito. Como uma arminha com os dedos.

De outra parte, as reações a esta fase de pandemia é intensificar as pesquisas da ciência, as ferramentas da tecnologia. É nesse período que a ciência em rede coloca os seus melhores para fabricar vacinas e remédios que nos permitam enfrentar os vírus e as bactérias oportunistas. E, como já aconteceu logo após outras crises da humanidade, multiplica-se a criação que vem expressa em novos livros, lives, filmes, séries, pinturas, esculturas, músicas, poesias. Ciência e arte explodem em suas diversas formas depois de uma grande perda, como após a I GG (década de 1920), de uma pandemia (virada do século depois da peste negra), um ciclo tirânico ou totalitarista (Stalin, Hitler, Franco, Mussolini).

Mas se o objetivo predominante é de guerra, de vencer a guerra, o uso que se faz das inovações não constrói. Destrói. No Brasil, com repercussões em todo o mundo, crises foram enfrentadas com a humanização das relações sociais e internacionais. Foi preciso um José Serra para quebrar as patentes do coquetel contra a pandemia de HIV que dizimava a humanidade nos anos 1990. Assim foi feito um laboratório que salvou a África, que por seu grau de desenvolvimento e seus costumes poligâmicos permitiu a explosão de contagiados e mortos por HIV, no nosso país irmão Moçambique. Assim como foi preciso um João Dória no ano 2020 para ir buscar no país onde o vírus da covid-19 nasceu, o insumo para a vacina que permitisse controlar a própria criação. Assim como foi preciso uma sociedade científica que em rede global e em cooperação em tempo recorde criasse as vacinas contra a Covid-19.

Precisamos – e encontramos sempre, políticos Josés e Joãos; agentes da saúde como as Marias e Clarices; voluntários como os que estão socorrendo as redes de saúde e a população doente e empobrecida pela falta de emprego e de renda; cientistas em rede como os que trabalham em cooperação nos tantos laboratórios pelo mundo.

Precisamos de todos os que estão humanizando nossa sociedade sofrida, tomada por outros tipos de vírus e bactérias oportunistas, que promovem a doença e a morte porque não as aceitam, as negam, ou com elas lucram.

Neste mesmo período em que se registra a perda de milhares de vidas por dia tiradas por um vírus que só se enxerga no laboratório, estamos indo de foguete ao espaço não por desejo de guerra, mas por desejo de ir aos céus mesmo, com o fruto da criação após quase um século de pesquisas e investimentos, de foguetes (e não armas). Há pouco foram duas viagens espaciais, por quem sonha em ir além desta terra-planeta concreta, limitada.

Então é isso. O passado pode ensinar os que com ele querem aprender. Já um futuro melhor, incerto por definição, só acontecerá se agirmos hoje, com rumo e determinação. Sabendo que ali na frente algo inesperado pode acontecer, exigindo redefinição de rumos, mas encontrando-nos prontos para mais uma adaptação. Não para destruir esta que pode ser uma dádiva, e não um “castigo divino”: a vida humana.

2021-08-02T09:04:11-03:00 2 de agosto de 2021|

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