A falta que faz um líder

Foto: Cleia Viana/ CD

O Brasil anseia por um ou uma líder que conduza o país a um porto mais seguro e mais alegre, pois que sacudido por uma violenta crise de múltiplos aspectos. Teremos a chance de escolha em 2018, mas daqui até lá vai continuar o processo acelerado de depuração do Estado que vivemos em nossos conturbados dias. O Estado aqui entendido é o conjunto das instituições que controlam e administram uma nação politicamente organizada. É evidente o mau funcionamento desse conjunto.

Nossas instituições organizadas pela Constituição de 1988 estão desajustadas em relação ao ciclo tecnológico da era da informática, ou era da informação, condutora de toda uma gama de mudanças que exigem liberdade e transparência. Os processos de decisão desajustados em relação às novas demandas de nosso tempo, necessários para a condução concertada e pacífica de solução dos problemas próprios do mundo em mudança, têm fragilizado o mais civilizado sistema de convívio social, que é a democracia. Isso não acontece somente entre nós, mas em todas as partes do mundo onde se construiu o Estado Democrático de Direito.

A aceleração e a profundidade das mudanças da nossa era não encontram, e nem podiam encontrar, correspondência nas instituições, que são por natureza rígidas e lentas, estruturadas num conjunto fundamentado na Constituição. O Poder Legislativo, ouvidas todas as demais instâncias, tem a responsabilidade de fazer as necessárias reformas e inovações para buscar cobrir os efeitos dessa diferença de ritmo entre o mundo institucional e o mundo aberto da informática e da informação na sustentação do equilíbrio democrático. Tem falhado e muito. Mas não só ele.

O PSDB nasceu em um final de ciclo, em 1988, em plena Constituinte. Nunca é demais lembrar que em 1989 caiu o Muro de Berlim, símbolo maior da Guerra Fria que marcou o Século XX. A globalização subsequente mudou completamente as relações sociais em todo o mundo. Nascido na mudança, romper paradigmas é nosso DNA. Um partido fundado por Mário Covas e Franco Montoro, dentre outros líderes, agregou políticos de várias tendências em torno de um programa de mudanças, formando a massa crítica para barrar o conservadorismo presente no Congresso Nacional, que impedia o avanço na construção do nosso Estado Democrático de Direito brasileiro. Um partido que conduziu as grandes mudanças da década dos 1990, comandando o país, muitos estados e milhares de prefeituras, resultando em uma guinada nos indicadores de eficiência no uso do dinheiro público, respeito às leis, valorização dos processos democráticos de decisão, não pode deixar que se percam seus fundamentos de convivência inclusive interna de respeito a pensamentos diversos num momento de tanta gravidade quanto o que vivemos.

Franco Montoro queria o partido unido pela defesa da democracia e do parlamentarismo, pela via da reforma para a transformação do país, pelo combate ao fisiologismo/populismo/totalitarismo, pelo uso responsável do dinheiro público, e pelo respeito às diferenças.

É certo que, sintonizado com as mudanças já presentes em todo o mundo, o Brasil acordou em 08 de maio de 2013, quando a primeira multidão tomou a Esplanada dos Ministérios e obrigou a todos a olhar para nossos representados e reconhecer: “não temos ouvido vocês”. Porque é disso que se trata, esse é o pano de fundo que permeia toda a trama de corrupção institucionalizada, de Poderes que não funcionam, de descrédito em que caímos Executivo, Legislativo e Judiciário, sem exceção. Não estávamos ouvindo o som crescente da indignação espalhada por toda parte, chamada e organizada a multidão através das redes, em uníssono potente dizendo “não”. Não havia bastado o STF transmitindo ao vivo o julgamento do Mensalão, elites políticas e empresariais continuavam na sua enlouquecida toada fortalecendo o sistema de corrupção em torno do dinheiro público, com total desprezo aos representados, a seus valores, e às suas demandas sintonizadas com o século XXI. Vivemos um tempo de depuração, necessário para a conscientização de que é preciso evoluir na construção do Estado que queremos.

Não é por acaso que nos rankings que listam os países por grau de desenvolvimento, desconfiança nas instituições, de justiça e de igualdade, o país está na rabeira em todos. O ranking de competitividade do Fórum Econômico Mundial constatou que o Brasil é o país em que a população menos confia em seus políticos, entre 137 nações. À descrença unem-se a ineficiência dos gastos públicos, a corrupção e o peso do Estado.

O PSDB, que poderia estar fazendo a diferença neste momento de extrema gravidade para todos, parece não estar ouvindo sequer a si mesmo. Grandes mudanças são possíveis quando se tem um líder. Franco Montoro e Mário Covas nunca fizeram tanta falta. É preciso repensar a vida partidária, reconhecer seus imensos valores, e escolher democraticamente um líder compromissado para conduzir 2018 e os novos tempos que virão. Para isso, o PSDB com um novo programa e uma nova direção, é um partido necessário.

 

* Yeda Crusius é economista e deputada federal pelo PSDB/RS em seu quarto mandato. Já ocupou os cargos de Ministra do Planejamento e Governadora do RS.

 

Data do Artigo: 02/10/17

2017-10-03T13:18:26-03:00 2 de outubro de 2017|Tags: , , , , , , |

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