Palavra como encontro entre o gênio e o louco

Um dos filmes mais delicados que vi ultimamente é O Gênio e o Louco, baseado em fatos reais sobre o nascimento do dicionário da língua inglesa feito em Oxford, Inglaterra. Uma das cenas mais criativas é a que os atores representam no imaginado diálogo entre o autodidata, J. Murray, que se compromete com a Academia a escrever o significado de cada e de todas as palavras da língua, e o louco, William C. Minor. Naquele tempo a ciência médica considerava louco quem hoje é diagnosticado com uma doença tratável – portanto era um doente. Bom que mudou, e os tratamentos de hoje permitem que os antes segregados, internados em asilos, convivam em sociedade.

A língua evolui com o tempo, criando e aposentando palavras que significam no mundo, e que um dicionário deve definir e respeitar. A cena é o jogo que os dois jogam, falando cada qual para o outro com um imenso prazer uma palavra, a ser perfeitamente significada em um dicionário, que os dois estavam elaborando. Feliz de quem domina sua língua, de quem vê a beleza em cada palavra. Para nós, no português – que é uma língua difícil, um exemplo é a palavra, cantada em verso e prosa, saudade. Mas vamos conhecer um pouco dos que fizeram o dicionário Oxford.

William Chester Minor (22 de junho de 1834 – 26 de março de 1920) foi um cirurgião do exército americano e um dos maiores contribuidores de citações do Oxford English Dictionary. Ele também foi mantido em um hospital psiquiátrico entre 1872 e 1910, depois de assassinar George Merrett.

Sir James Augustus Henry Murray (07 fevereiro de 1837 – 26 de julho de 1915) foi um escocês lexicógrafo e filólogo. Ele foi o editor principal do Oxford English Dictionary de 1879 até sua morte.

(O método escolhido pelos editores foi chamar definições que voluntariamente os cidadãos enviariam em cartas pelo correio. Milhares. Voluntá-rias – que o grupo de editores elaborava para compor o dicionário. Lembra algo como a Wikipedia? de onde tiro essas pequenas bibliografias? Grifo meu.)

Em 1878, Murray foi convidado para se encontrar com os delegados da Oxford University Press, com o objetivo de assumir o cargo de editor de um novo dicionário do idioma inglês, para substituir Johnson e capturar todas as palavras então existentes no mundo de língua inglesa em todas as suas várias tonalidades de significado. Seria um projeto gigantesco, que exigia alguém com o conhecimento e a determinação obstinados de Murray. Esperava-se que demorasse dez anos para ser concluído e tivesse cerca de 7.000 páginas, em quatro volumes. De fato, quando os resultados finais foram publicados em 1928, chegavam a doze volumes, com 414.825 palavras definidas e 1.827.306 citações empregadas para ilustrar seus significados. Murray nunca foi membro de uma faculdade de Oxford e recebeu apenas um doutorado honorário no ano anterior à sua morte.

Confesso que não faço ideia de quantas palavras tem nosso dicionário de português. Mas a cena entre os dois, aquele momento único de conexão pelo amor às palavras, lembrou-me a Criação de Adão, na Capela Sistina, pintada pelo gênio Michelangelo. O toque. O instante da Criação. A energia da Conexão de Deus que deu vida ao Homem.

Repito sempre que português é uma língua difícil. Um fala e o outro entende outra coisa. Com isso, forma-se uma geração de fofoqueiros. É assim que se cria uma intriga, que é uma mentira falada de modo que o outro acredite. Se alguém em quem você acredita te diz que você foi traído, você acredita, e sai matando. Se uma pessoa distorce o que outra disse, ou mente, repetidamente, “vira verdade”. Na política isso é método para manipular cabeças menos avisadas.

Aprendi em 1991 de um senhor que estava vivendo aquele incrível pro-cesso de abertura com o fim da União Soviética, na Hungria, em encontro de Previsão Econômica, que lá, sob ditadura cruel em que tudo era censurado, se praticava a valorizada “tradição oral”. Quem não tem liberdade valoriza a verdade como meio de organização. Com ela, a tradição oral, o que era transmitido por um chegava com as mesmas exatas palavras sem o enfeitar que move o português falado, em tantas etapas quanto necessárias, para chegar ao final do caminho. Ninguém inimigo ficava sabendo hora e local de reunião de conspiração. Imagine aqui…. A partir de então coloco como base de comunicação falar direito, respeitando autoria e citação, e não enfeitar com nossa língua difícil de modo a distorcer a informação. Muitos que hoje decidem manchetes de jornal ou se arvoram de comentaristas políticos deviam fazer um curso lá…

Para mim, Comunicação tem muito a ver com as menções que faço nesta crônica. Tenho feito o exercício há muito tempo, buscando que a leitura de algo que eu escreva respeite a verdade dos fatos no nosso tempo digital em que se lê cada vez menos. Textos longos, os textões de páginas, encurtam cada vez mais. Cada vez mais as notícias são lidas só pela manchete, e o fato é transmitido cada vez mais por imagens. O cuidado de selecionar imagens que signifiquem é uma forma de comunicação que requer estudo, tempo e trabalho. O resultado pode se medir por compartilhamentos, likes, “seguires” e “bloqueares”, enfim, tudo o que move as redes. Que o digam os memes, de aceitação de milhões quase instantaneamente se caem no gosto dos seguidores. Caneta Azul. Witzel ajoelhando-se frente ao Gabigol. Táca-le pau. Tá xoveno aí? Deepfake. Tudo muito rápido. Passageiro. Por vezes, causam muito estrago.

Seleciono fotos que signifiquem para o texto que escrevo. Esse exercício aproveita o mundo do computador, que tudo nos traz se dele sabemos fazer o uso adequado. O ato de comunicar pode ser criação, arte que move o mundo. O ato de amor que em instantes gera um novo ser, o instantâneo de uma foto que muda o mundo, a leitura de um livro que ilumina uma geração, um filme que emociona e se torna clássico, um quadro que vendido por milhões em um leilão é depois doado anonimamente pelo mecenas a um museu, uma música que liga gerações, uma peça de teatro que deflagra uma ditadura.

Demorou a História do Homem para que pudéssemos buscar fazer arte em cada foto que pelo nosso celular produzimos, ou em cada texto que publicamos nas redes sociais. Creio ser temporário este período em que o mau uso da tecnologia pelas redes vai sendo instrumento de plantio acelerado da rancorosa divisão entre “eles” e “nós”. Quando são consideradas conquistas, como a conquista do acesso às redes, passam a ser defendidas por todos aqueles – a maioria, que agradecem a Evolução que passo a passo nos oferece a oportunidade de usar a liberdade para criar. Mesmo que o resultado, uma selfie por exemplo, permaneça como comunicação apenas entre a realidade e quem a capta naquele momento, ou entre o autor e quem ele conecta por compartilhamento.

A liberdade das comunicações, a estabilidade da moeda, o acesso ao emprego, são consideradas conquistas pelos brasileiros. O acesso à participação, inclusive pelo consumo, também. Quem ousar ameaçar essas conquistas, censurando, promovendo o desemprego e a volta da inflação, cai. Da mesma maneira, creio que a ação política seja capaz de ir ajustando, através de leis por exemplo, o descompasso entre a tecnologia e o uso que se faz dela. Exemplos recentes não faltam, mesmo no Brasil do descrédito sobre a classe política: lei de proteção dos dados, lei da liberdade econômica, lei da licença paternidade.

Reclamam dos políticos, em especial os do Congresso Nacional. Pergunto se conhecem leis recentemente aprovadas que tem mudado as coisas para melhor. Pergunto sobre o que consideram importante na própria vida e que não tem recebido a atenção deles. Peço que apontem quais ações ou leis devem ser aprovadas que consideram importantes para que as coisas fiquem melhores. Vale outro capítulo.

* Yeda Crusius é presidente Nacional do PSDB-Mulher. Ministra do Planejamento no governo Itamar Franco (1993), Governadora do RS (2007/2010), Deputada Federal por quatro mandatos.

Data do Artigo: 27/11/2019

2019-11-27T10:40:43+00:00 27 de novembro de 2019|

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