Os seis primeiros anos

Investir em políticas públicas voltadas à primeira infância é uma das melhores maneiras de construir uma sociedade menos violenta e igualitária, mas ainda precisamos despertar para o tema

Foto: Revista Época

Na primeira vez que pisou no Brasil desde que deixou a Casa Branca, Barack Obama fez questão de ressaltar a importância de ter um olhar cuidadoso para quem está começando a vida. “Meu conselho a qualquer nação é garantir que o sistema de educação seja universal, alcance todas as crianças, e seja adaptado a todas as realidades. E que comece bem cedo. Quanto mais cedo se investir nas crianças, melhor será”, declarou durante o Fórum Cidadão Global, organizado pelo Jornal Valor Econômico e ocorrido na última quinta-feira, 05. “Muitas crianças começam a ir para a escola quando tem 5 ou 6 anos. Nessa idade, elas já perderam muito. Quando chegarem na primeira série, já estarão para trás. Então, temos que alcançar as crianças quando têm 2 ou 3 anos, e darmos a elas o conhecimento básico necessário”, completou. As palavras do líder global vêm em um momento em que muitos setores da sociedade se mobilizam para discutir uma questão importantíssima: como estamos tratando nossas crianças?

Até bem pouco tempo, acreditava-se que as crianças nasciam como uma folha em branco e que a família era a única responsável pela formação desse indivíduo. No entanto, a ciência traz cada vez mais evidências de que, ao nascer, as crianças já apresentam características que somadas às influências do meio onde estão inseridas, ajudam a compor a forma como aprendem e vivenciam suas experiências. É durante a primeira infância, período que vai do nascimento aos seis anos de vida, que o ser humano passa por processos importantes, como aquisição motora, amadurecimento
do cérebro e iniciação social e afetiva.

Foto: Revista Época

Quanto melhores os estímulos e as condições para o desenvolvimento infantil durante este período, maiores são as probabilidades da criança alcançar o melhor de seu potencial, tornando-se um adulto mais equilibrado, produtivo e realizado. “É como se fosse a construção de uma casa. Quando a base é sólida, construída com amor, carinho, respeito e aprendizado, maiores são as chances de a criança se tornar um adulto que vai contribuir com a sociedade”, observa Eduardo de C. Queiroz, presidente da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, que desenvolve e apoia projetos que buscam o pleno desenvolvimento da criança na primeira infância. Por outro lado, crescer em situação de vulnerabilidade, estresse, violência constante, seja ela física ou psicológica, pode trazer profundas marcas que vão acompanhá-la para o resto da vida.

Uma pesquisa realizada na Universidade de Chicago, por exemplo, comprovou que alunos que cresceram em situação de vulnerabilidade chegam a escola com até trinta milhões de palavras a menos no vocabulário. “E como se você colocasse dois corredores para largar juntos em uma maratona e um deles estivesse com os pés amarrados. Ê injusto”, diz Queiroz.

Os ganhos de se investir na primeira infância impactam toda a sociedade. Segundo o americano James Heckman, prêmio Nobel de Economia e um dos principais ativistas da primeira infância, a cada US$ 1 investido em uma criança, os retornos financeiros anuais chegam a 10%. Seguindo essa lógica, o Brasil, que tem quase 20 milhões de crianças de 0 a 6 anos, teria retornos milionários. A longo prazo, isso significaria uma sociedade com menores índices de criminalidade e encarceramento, taxas decrescentes de evasão no ensino médio e menor índice de gestação na adolescência, além da redução dos gastos com saúde.

Para que as vantagens apareçam, no entanto, é preciso que as áreas da saúde, educação e desenvolvimento social caminhem juntas, guiando políticas integradas, como prevê o Marco Legal da Primeira Infância, assinado em março de 2016 e que coloca a faixa etária como prioridade no desenvolvimento de programas, na formação dos profissionais e na formulação de políticas públicas. É um primeiro passo, mas há ainda algumas barreiras a serem enfrentadas. A primeira é transpassar a que separa teoria e prática e fazer com que a sociedade tome consciência das
descobertas que vêm da academia. Conhecimento é o primeiro passo para mudança. Também é preciso unir forças para convencer os gestores de que apostar na primeira infância não é gasto, mas investimento com retorno valioso para a sociedade.

“Quanto mais cedo se investir nas crianças, melhor será” (Barack Obama)

A maneira como a educação infantil é praticada no Brasil é outro ponto que requer atenção, principalmente pela dificuldade de acesso. Segundo dados do PNAD (Pesquisa Nacional de Amostras por Domicílio), 90% das crianças de 0 a 1 ano estão fora da creche. Até os 3 anos, 70% não têm acesso à educação. Para os que já estão matriculados, a situação não é muito melhor, uma vez que não há muitos dados que avaliam a qualidade do ensino ofertado a este público. Pouco se sabe sobre a maneira como creches e pré-escolas realizam seus trabalhos com as crianças. “Essa falta de conhecimento faz com que o Brasil invista vinte vezes mais em ensino superior do que em educação infantil. Mas nós temos que aprender com os países desenvolvidos e equilibrar melhor nossos investimentos, olhando também para a primeira infância. Como bem disse Obama, vamos precisar investir mais e melhor em educação desde os primeiros anos de vida. Só assim conseguiremos entrar em campo para jogar com o time completo”, defende Queiroz.

Não há tempo a perder. Nelson Mandela, outro grande líder global, definiu em uma conferência da Organização das Nações Unidas de maio 2002: “A História nos julgará pela diferença que fazemos na vida diária das crianças”.

Fonte: Revista Época
Data: 09/10/2017

2017-10-16T19:31:43+00:00 9 de outubro de 2017|Tags: , , , , |

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