Milionários do Cruzeiro, cidadãos do Real

Fomos todos milionários no Brasil. Aparentemente, isso é bom. Só que não. Dos réis ao real, muita inflação rolou. Fomos milionários nos tempos pré-Real quando vivíamos correndo para aplicar o salário, pouco ou muito, no overnight – a aplicação do dinheiro enquanto dormíamos. A cada dia, correr atrás do valor que a moeda perdia a cada hora. Tempos de hiperinflação. Perguntam se isso importa aos que nunca viveram esse processo. Sim, importa. Tanto que governante que ameaçar a estabilidade conquistada com o Real cai.

A inflação, sabemos todos, tira dos que não tem para dar a quem tem mais, e muito mais. O Brasil aceitou esse pacto pernicioso durante muito tempo, até optar por um pacto mais civilizado. Teve que ter decisão, líder, conhecimento, como tivemos nos anos 1990. Na fábrica de ilusões que a inflação cria, como essa de ser milionário, sugiro olhar esses velhos recibos. Não são fake, são verdadeiros.

A evidência mostra que só é bom e importante ser milionário em países com moeda estável. Ser milionário no Brasil dizia coisa ruim. Hoje, moeda estável diz outra coisa. Em 1993 a família gastou na compra de um carro usado, Fiat Uno, CENTO E TRINTA MILHÕES. De cruzeiros, moeda de então. Se gastamos tantos milhões era porque tínhamos, os milionários de araque. O recibo é do carro comprado à vista quando fui honrosamente Ministra do Planejamento, Orçamento e Coordenação da República, a convite do Presidente Itamar Franco – que decidiu que era a hora de ter mulheres no seu ministério. Erundina, para a Administração, e eu para o Planejamento. Assumindo depois do impeachment de Collor, Itamar estava determinado a acabar com a inflação e a enfrentar os sanguessugas que lucravam com as doenças do povo. Pela inflação e outros maus costumes históricos de país subdesenvolvido, a maioria do povo era formada por pobres e miseráveis, analfabetos e desesperançados de um mundo melhor. Ele resolveu aceitar a Presidência para enfrentar essa chaga.

Para os finais de semana em Brasília, compramos o carro para ir ao super, ao restaurante, fazer reuniões, coisas de gente normal, mas para não usar o carro ou o motorista oficial na tal de vida normal. No Rio Grande do Sul fechei minha empresa de consultoria porque julguei estar impedida, como ministra, de continuar a dar palestras pagas. Nada de misturar o público e o privado, portanto. Hoje soa estranho, dada a invasão de privacidade tanto pela tecnologia quanto pelos maus costumes dos que usam o cargo no setor público para lucrar como se privado fosse. Seguia minha ética e meus costumes de sempre. Que coisa.

Outro recibo mostra quanto meu filho, que estudava Engenharia Elétrica na UFRGS, ganhou na bolsa de iniciação científica do CNPq. Recebeu CINCO MILHÕES QUATROCENTOS E QUARENTA MIL E NOVENCENTOS. De cruzeiros fixos, sem reposição pela inflação. A conta podia ser feita em outra unidade de conta, ou 2.278,4853 em UFIR. Um bolsista “milionário”. Só que não. Nem naquela época, nem agora, nenhum bolsista é milionário pela bolsa.

Mais tarde, foi aceito na Universidade de Stanford, California, para iniciar em 1996 o seu doutorado. Lá, a moeda, como sempre foi nos Estados Unidos, era o dólar. Aqui a moeda já era o real. Havíamos conquistado a estabilidade. Ganhou bolsa recebendo em dólares, correspondentes à bolsa em reais, durante os 4 anos de curso. Quando terminou o doutorado, tendo decidido ficar na Califórnia, cumpriu o contrato que havia assinado com o governo brasileiro. Tomou um empréstimo do total recebido e calculado pela CAPES, em dólares, e mês a mês, centavo a centavo, devolveu tudo o que recebeu do governo. Fez questão de continuar se guiando por sua ética e seus costumes. Que coisa.

A inflação, felizmente, é uma pauta vencida. Para (quase) todos os que a vivemos, é uma conquista que defendemos a ferro e fogo. Na nossa Constituição há um artigo que define a nação através dos símbolos: hino, bandeira, armas e brasão. Para mim, falta um: a moeda nacional. Moeda é símbolo de organização social de um país, que quando respeita a sua estabilidade é porque o país se respeita. Dólar é dólar nos EUA desde sempre, e espero que Real seja nossa moeda para sempre. Governante que ameaça os brasileiros com sua volta cai. Uma sociedade que se respeita não aceita escolhas políticas que destruam o legado da estabilidade. Afinal, tem outras coisas muito mais importantes com que se ocupar do que correr atrás das perdas diárias no valor do dinheiro. Desemprego, saúde, educação, segurança, sustentabilidade.

Quem somos o Brasil de hoje de poucos milionários? Gerações denominadas por letras, X Y Z Alpha, nascidos depois dos anos 1980, são os jovens e jovens adultos de hoje que vivem na esteira da revolução tecnológica 4.0, da internet, da Inteligência Artificial, do mundo digital. O número de pessoas dessas gerações são a evidência de uma mudança de longo prazo que se materializa na inversão da antiga pirâmide etária: deixou de ser uma pirâmide para ser um barril. Escolhas feitas no passado apresentam seu resultado na forma de maior longevidade, portanto mais velhos, e menor natalidade, portanto menos jovens.

A responsabilidade perante essa nova realidade demográfica implica em, primeiramente, reconhecer as evidências de um mundo mais velho e mais aberto, sem os muros do passado. Em seguida, é preciso estabelecer as emergências, urgências e prioridades da hora, e isso a decisão política faz. Finalmente, porque os desejos são infinitos e os recursos escassos, fazer as mudanças necessárias para dar sustentabilidade ao desenvolvimento. Não se aceita a nostalgia do que já foi – como se o passado tivesse sido melhor. Já foi. Para não retroceder, há que assumir a responsabilidade de fazer hoje o que é desejado e necessário para o futuro.

Há bilhões de pessoas num mundo onde o trabalho mudou. Quem garante trabalho, emprego e renda para honrar os gastos necessários ao modo de vida das sociedades modernas? A pobreza e a miséria ainda existem substantivamente no mundo atual. Quem define e garante direitos como liberdade e acesso aos bens e serviços básicos que dão dignidade ao ser humano? Os males modernos não estão confinados em muros ou países isolados. Qual a Ordem Internacional para navegar nesse mundo de interdependências e livre conexão? O fazer político é que gera as respostas. Estamos todos nesse barco. Entre nele.

* Yeda Crusius é presidente Nacional do PSDB-Mulher. Ministra do Planejamento no governo Itamar Franco (1993), Governadora do RS (2007/2010), Deputada Federal por quatro mandatos.

Data do Artigo: 26/11/2019

2019-11-26T10:51:41+00:00 26 de novembro de 2019|

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