Delas, para elas, com elas

Foto: reprodução da internet

Hoje (8) é comemorado o Dia Internacional da Mulher. Essa data celebra as lutas das mulheres por melhores condições de trabalho, melhores salários, direito ao voto, dentre outros tantos pleitos por igualdade. A escolha do mês de março é motivada por um incêndio de uma fábrica têxtil de Nova York, em 1911, quando cerca de 130 operárias morreram carbonizadas, mas desde antes desse desastre, as mulheres já vinham lutando contra a diferença entre os sexos.

A Organização das Nações Unidas (ONU) assinou, em 1945, o primeiro acordo internacional que afirmava princípios de igualdade entre homens e mulheres. Em 1975 comemorou-se oficialmente o Ano Internacional da Mulher e em 1977 o dia 8 de março foi reconhecido oficialmente pelas Nações Unidas. No Brasil, a luta pelo voto feminino aconteceu nas décadas de 1920 e 30, e conseguiram a vitória em 1932 na Constituição promulgada por Getúlio Vargas

Para Maíra Valério, jornalista pós-graduanda em Gênero, Sexualidade e Direitos Humanos na FIOCRUZ e sou autora do site Vulva Revolução, o Dia Internacional da Mulher é um lembrete de toda a carga histórica de desigualdade que as mulheres enfrentam até hoje. Ela ressalta que esse dia serve “para que a gente possa olhar pra frente em busca de novos caminhos”. Maíra afirma que é preciso ter cuidado com a apropriação cultural da data para que não se torne mais um dia de presentear a mulher, enaltecer a tripla jornada e de reforçar estereótipos. “Essa é uma época justamente para pensar sobre tudo isso de maneira critica em busca de soluções igualitárias”, frisa a jornalista.

Desbravando e conquistando

Por mais que a sociedade tenha avançado, a escalada de uma mulher ainda é complicada. Maíra pontua que a desvantagem no mercado de trabalho ainda é uma das grandes injustiças, e caso a mulher seja negra, essa desvantagem aumenta mais ainda. A deputada federal Yeda Crusius (PSDB/RS) afirma que o ambiente interno muda nas empresas quando existe uma proporção maior de mulheres, em qualquer setor. “Nós, mulheres, sabemos que temos que ocupar esses espaços, porque a competência entre os gêneros é a mesma”, diz a parlamentar, que é presidente do PSDB Mulher.

Outro desafio é que os serviços de casa, como cuidar de filhos, fazer faxina, lavar louça, tudo isso fica nas mãos das mulheres. Hoje em dia existem muitas famílias constituídas por mães e filhos, já que alguns pais simplesmente abandonam as responsabilidades financeiras e emocionais. “Sobra pra mulher levar um filho doente no hospital, cuidar dos pais, se for casada, ainda cuida do marido… e quem cuida dela?”, questiona.

A questão de a educação sexual ser um tabu no Brasil também é um problema. Segundo Maíra, isso dificulta que pessoas tenham acesso não apenas a métodos contraceptivos, mas também a um conhecimento que leve a uma vida sexual saudável e satisfatória. Para ela, o simples ato de sair de casa sendo mulher já é uma batalha, já que o assédio também é um grande problema.
Na política as mulheres também passam por problemas. Por ser minoria, os temas específicos defendidos pelas parlamentares têm dificuldade de andar, segundo Yeda. “Enfrento dificuldades, como todas as mulheres enfrentam em um mundo evidentemente machista”, diz a parlamentar.

Elas merecem Mais oportunidades

A Secretaria do Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos (Sedestmidh) firmou parceria com o Pronatec Mulheres Mil, programa do Mistério da Educação em parceria com a Secretaria de Educação que visa a formação de mulheres em cursos técnicos e profissionalizantes. A pasta é responsável por indicar mulheres egressas ou assistidas em uma unidade da nossa rede de proteção à mulher.

Hoje (8), durante solenidade no Palácio do Buriti em homenagem às mulheres será lançado o Observatório Distrital de Gênero e o Banco de Empregos para Mulheres Vítimas de Violência Doméstica e Familiar. O último consiste em um banco de vagas, firmado por meio de convênio com o Senado e com a Câmara Legislativa do Distrito Federal que prevê 2% das vagas de terceirizados para mulheres vítimas de violência atendidas pela rede de proteção às mulheres da Sedestmidh. A intenção é expandir a ideia para outros órgãos públicos e empresas privadas.

A palavra com “F”

O feminismo ainda é mau visto por boa parte das pessoas. No dicionário, a definição dessa palavra é “sistema dos que preconizam a ampliação legal dos direitos civis e políticos da mulher ou a igualdade dos direitos dela aos do homem”. Isso quer dizer que o feminismo luta para que as mulheres sejam vistas e respeitadas como seres humanos no mesmo nível que os homens.

Maíra lembra que o feminismo foi quem trouxe o reconhecimento da mulher como ser humano que merece respeito. “Embora tenha muita coisa que precise avançar, pelo menos o movimento feminista tem colocado em questão as pautas que precisam de atenção como o racismo, a misoginia e a disparidade salarial”, diz a feminista. Para ela, o movimento é uma ferramenta importante de manutenção social para que aquilo que coloca a mulher em desvantagem seja ao menos observado e algo seja feito a respeito.

Atualmente, o feminismo luta contra problemas temporal, como as dificuldades no mercado de trabalho, e também com desafios, que ganharam novas configurações com o advento da internet. “Muitas mulheres sofrem com o abuso de suas imagens, como montagens ou exposição de fotos intimas com o intuito de humilhar e levantar comentários negativos”, avalia Maíra. Além disso, as mulheres lutam para que elas tenham autonomia sobre o próprio corpo, sem que ele seja objetificado ou julgado.

Para as mulheres que ainda se dizem contra o feminismo, a jornalista dá a dica: “é preciso entender que ele é uma ferramenta importante e que graças a ele, a mulher pode ter o direito de emitir uma opinião, mesmo que seja contrario ao movimento”. Ela conta que, historicamente, as mulheres não tinham acesso ao espaço de debate, discussão e estudo como hoje em dia. “Ainda temos muito o que avançar mas considerando que não podíamos estudar, dentre outras coisas, a gente tem um avanço muito grande”, diz Maíra.

Discussões elevam respeito

Mesmo com os avanços em relação à igualdade de gênero no mercado de trabalho, a sociedade ainda tem muito o que evoluir. É o que mostra uma pesquisa realizada pela Workana. O estudo foi realizado com 1.500 brasileiras e, de acordo com o levantamento, cerca de 90% das mulheres sentem que os homens são mais respeitados no mercado.

Quase 70% das entrevistadas acreditam que as mulheres tiveram maior poder de decisão no último ano e 95,7% entendem que esse foi um passo importante para que o assunto fosse discutido em 2018. Já sobre abuso psicológico, 67,6% afirmaram que já foram contrariadas no trabalho para se sentirem erradas mesmo estando certas, 68,3% já foram interrompidas por homens em reuniões e 58,7% afirmam que algum homem já levou crédito por algo que elas fizeram. Quando se fala da aparência, 52,6% já foram julgadas no ambiente de trabalho.

Quando o assunto é assédio, o Brasil apresenta números alarmantes: 48,4% das mulheres já se sentiram perseguidas por algum homem do trabalho, enquanto 28,8% deixaram de denunciar algum abuso sofrido por medo de serem demitidas. Questionadas sobre situações desagradáveis no ambiente profissional, 40,3% das entrevistas afirmaram ter sofrido assédio ou abuso de uma autoridade, 38,3% notaram discriminação ou preconceito e 19% sofreram com assédio sexual. Além disso, 17% sentiram desconforto antes de começar no emprego: os casos foram logo na entrevista.

Como vencer

Para vencer o machismo, ainda será preciso lutar muito. A deputada Yeda Crusius afirma que é importante que haja união e quebra de preconceitos. “Dentro da Câmara dos Deputados, são diversas as propostas que tramitam em prol da mulher. Há um infinito ainda a fazer nesse campo, que vai da mudança no mundo do trabalho, no qual empresas privadas também devem ser abertas na redução das desigualdades, até a educação para a igualdade e para a paz”, diz a parlamentar. “Um avanço que tivemos no meu tempo dos meus três primeiros mandatos foi a Bancada Feminina. Foi considerado a coisa mais estranha, esquisita do mundo. (…) Nós trabalhamos juntas, sejamos de esquerda ou de direita”, ressalta.

Maíra pontua que precisamos de ações cotidianas em pequena, media e grande escala. Desde encontros, debates e conversas no dia a dia até políticas que estabeleçam inserção de mulheres no mercado de trabalho, que garantam que ela possa cuidar da saúde e que tenham onde deixar os filhos. “Precisamos de muita coisa pra ajudar a contornar as situações machistas que as mulheres enfrentam”, enfatiza.

Glossário feminista

Os artigos, fóruns e conversas entre feministas são cheios de palavras que, para quem não está acostumado, pode ser confuso. Trouxemos um pequeno dicionário das principais expressões utilizadas nesse meio:

• Bropriating: Quando um homem se apropria da mesma ideia já expressa por uma mulher, levando os créditos por ela. O termo é uma junção de “bro” (de brother, irmão, mano) e “appropriating” (apropriação). É comum que aconteça em reuniões.
• Empoderamento: Remete à consciência do poder que as mulheres tem coletiva ou individualmente e também tem a ver com o resgate de sua própria dignidade como pessoa.
• Gaslighting: É um tipo de abuso psicológico que leva a mulher a achar que enlouqueceu ou está equivocada sobre um assunto, sendo que está originalmente certa. É um jeito de fazer a mulher duvidar do seu senso de percepção, raciocínio, memórias e sanidade.
• Machismo: É a pressuposição de que as mulheres são, por natureza, inferiores aos homens. Misoginia: É o ódio ou aversão a mulheres e meninas.
• Maninterrupting: Prática sexista de interromper a mulher, de maneira desnecessária, quando ela está falando, não permitindo que a ideia seja terminada.
• Mansplaining: Quando um homem explica algo a uma mulher de forma condescendente, acreditando que sabe mais do que ela. Pode até acontecer de um homem interromper uma mulher para “ensinar” algo no qual a moça é especialista.
• Objetificação: Se trata da banalização da imagem da mulher. Usá-la como produto ou objeto, sem considerar que ela é um ser humano.
• Patriarcado: É o sistema sociopolítico em que o gênero masculino têm supremacia.
• Sexismo: Discriminação em razão do sexo.
• Sororidade: Significa a união entre as mulheres, que durante tanto tempo aprenderam que deveriam ser rivais. A palavra vem do francês “sororité” e a política mexicana Marcela Lagarde, uma das maiores divulgadoras do conceito em língua espanhola, o define como “o apoio recíproco entre as mulheres para se conseguir o poder para todas.

Por Geovanna Alves
Fonte: Jornal Alô Brasília
Data: 08/03/18

2018-03-08T12:55:27+00:00 8 de março de 2018|Tags: , , , |

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