Ciclos, movimentos que se repetem

Cada vez que, ao assumir o poder pelo voto, um grupo governa dentro do fatídico “nós” e “eles”, portanto para uma parte pretensamente formada por “iguais” – identitários, perde-se uma oportunidade para diminuir o fosso entre os diferentes, cria-se mais desigualdade, mais violência é gerada, e planta-se o conflito. Fazem isso hoje governos de esquerda e governos de direita, populistas de todo tipo.

Democracia é um sistema que busca resolver ou, pelo menos, reduzir conflitos em um ambiente de liberdade e respeito a leis. Uma minoria que é eleita pelo voto os representantes de seu povo, feito necessariamente de diferentes entre si, é constituída de pessoas que devem conviver em um ambiente onde divergências, com liberdade e respeito a regras, para que se chegue dentro desse grupo de representantes uma maioria que legisla para todos. Até hoje não se conheceu sistema melhor para o convívio civilizado em sociedade.

A busca pela igualdade até hoje gera divisões e incompreensões. Cada. um de nós é um ser único, biologicamente. Não há duas impressões digitais iguais. Somos também seres históricos, frutos de uma época e de uma cultura. Datados e identificados em seus lugares de vida. O que sou, de quem eu venho, é registro.

Quanto a épocas, bem, eu tenho a felicidade de já ter passado por três grandes ciclos, definidos como um período de 25 anos de vida. Crianças e Jovens, até os 25, adultos até os 50, velhos aos 75. Neste 2019 inicio meu quarto ciclo pessoal. Sou parte daqueles que soma na estatística do rápido aumento da longevidade brasileira. As imensas transformações que se seguiram às guerras do século XX formam uma experiência intensa de mudanças aceleradas, datadas e referenciadas regionalmente. Em termos de ciclos tecnológicos, revoluções realizadas em períodos mais longos, estamos em plena era 4.0.

O primeiro ciclo de 25 anos vivi em São Paulo. Fui jovem, estudante, e trabalhadora, na década dos 1960, que é uma das “datas” nas quais as mudanças levam o mundo a uma nova estrada. Na nova estrada, graças à pílula, a mulher, que faz metade da estatística da população, conquistou a chance de ver como igual ao homem no comando de si própria, de seu corpo, escolhendo (quando podia) a hora da maternidade, só sua. Podia sonhar, e lutar, em não ser apêndice, tutelada, um ser menor. Decidir sobre a maternidade passou a ser possível, e com isso podia decidir participar com liberdade em tantos movimentos da década que até hoje abrem estradas e constroem pontes entre sexos, gerações, povos. Fazer política. Trabalhar. Estudar. Ter sua própria renda.

Com a crise gerada pela renúncia de Jânio Quadros (1961), tive que trabalhar para poder viver, estudar. Não havia caderneta de poupança ou seguro desemprego, então pai desempregado era sinônimo de filhos da classe média aprendendo a ganhar a vida pelo trabalho. Em 1969, economista e ainda estudante de pós, vivi no ambiente geográfico dos movimentos que explodiam em Paris, nos Estados Unidos com os hippies e o Black Power, os drifters e os soldados no Vietnam, a guerrilha e os governos militares na América Latina. Os movimentos batiam ali nas ruas onde estudava, na Rua Maria Antônia e Dr. Vila Nova, a do Bar Sem Nome onde nos reuníamos preparando os festivais de música da nossa geração. Agitação de toda natureza.

No meu segundo ciclo de 25 anos, na década dos 1970, iniciado em Nashville e depois todo ele no Rio Grande do Sul, vivi a Academia e a Comunicação, já possível em tempo real e a cores. A Economia nesse rico e intenso período de instabilidade revolucionava, o mundo sacudido pelas crises do petróleo (1973 e 1979), crises das dívidas derrubando países, fragilizando a ordem mundial, em plena Guerra Fria e várias guerras localizadas. Demorou para as sementes lançadas nesse período resultasse no final da Guerra Fria, simbolicamente marcada pela queda do Muro de Berlim – que completa, neste 2019, 30 anos .

Iniciada a década dos 1990, eu podendo pela primeira votar para presidente em 1989, escolhi encerrei aquele segundo ciclo em que Economia e Comunicação formavam dois pés que me sustentavam na ação pública. Com uma nova, e duradoura, Constituição (1988), a grande utopia de país democrático se fazia possível. Assim montei o tripé, através da participação política, para agir na incrível década em que a grande utopia da Paz gritava ao século das guerras o seu “deu!”. A construção da União Europeia, depois da Queda do Muro de Berlim de 1989, acompanhou os ventos da globalização, que exigia liberdade de ir e vir de pessoas, de mercadorias, de dinheiro.

Com o Plano Real de 1994 meu país finalmente decidiu dizer não à inflação como perversa organização da economia e da sociedade. O país da bigamia monetária, segundo expressão de um chinês que aqui chegou e entendeu tudo (T.Y.Chang Tong, 1980). Estava montado o tripé, com o qual percorri a estrada da participação na esfera política de ação. Pude ser Ministra, Deputada, Governadora, com políticas que resultaram em vigorosas transformações.

Pois 25 anos depois aqui estamos, em 2019, início do meu quarto ciclo, quando o mundo coloca em dúvida a capacidade de a democracia poder continuar a ser o modo de solução de conflitos e de organização de sociedades livres. Mesmo com os avanços da ciência médica, é muito improvável que eu esteja daqui a 25 anos iniciando o outro, o quinto ciclo. Só saberemos então. Afinal, o futuro é, por definição, incerto.

Com a revolução das redes, é possível participar dele, como o fiz nos outros anteriores, agora comunicando-me por elas. Se quiser, participe do debate. Aqui encontrará o tema do dia, na provocação que o mundo trouxer, um pouco de memórias, e outro tanto de expectativas. Com a facilidade de sermos uma verdadeira editora completa e individual, num simples blog. Por simples, pode ser fascinante navegar nele. Assunto é o que não falta, difícil até escolher. O mundo anda dando muitas piruetas por minuto, e nos avisando do que está por vir. Vamos lá!

* Yeda Crusius é presidente Nacional do PSDB-Mulher. Ministra do Planejamento no governo Itamar Franco (1993), Governadora do RS (2007/2010), Deputada Federal por quatro mandatos.

Data do Artigo: 24/10/2019

2019-11-07T13:49:17+00:00 24 de outubro de 2019|

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