Celebremos!

Neste 2019 são lembrados vários acontecimentos muito importantes, as efemérides, a maior parte acontecidas no século passado. Antes, pessoas e eventos que mudaram o mundo: morria Leonardo da Vinci em 1519 – há 5 séculos de hoje; a Revolução Francesa de 1789 a 1799 – quando o Hamlet de Shakespeare já completava dois séculos. Mais perto – dá para lembrar pelos que viveram, tivemos a Grande Depressão de 1929; o início da II Grande Guerra em 1939 – junto com a morte de Freud; a Revolução Chinesa de 1949, a cubana, de 1959; a chegada do Homem na Lua em 1969 – junto com o Festival de Woodstock e a criação da Arpanet (embrião da Internet).

Daqui a poucos dias, no 9 de novembro, vamos celebrar os 30 anos da Queda do Muro de Berlim. A data marca o fim da Guerra Fria, que se seguiu às duas Grandes Guerras que, com sua lógica de investimentos, plantou as sementes da Revolução Tecnológica deste século XXI, o da Internet, o da Indústria 4.0. Um Novo Mundo.

No Brasil, a Proclamação da República em 1889, a Lei da Anistia de 1979, as primeiras eleições diretas depois do regime militar em 1989, etc. etc – e façam a sua lista. O que tem a ver a longa lista das efemérides mundiais com a nossa lista tupiniquim? Centenas de telas, músicas, livros e filmes já foram feitos para fazer a narrativa segundo cada escritor, escritora, artista. Não cabe numa crônica mas o exercício tem que ser feito. O que se passa no Chile nos afeta? E com a China, Líbia, Síria e os curdos? O que o Bolsonaro fala segue em ondas curtas para o que o Trump fala? É preciso mostrar que existe a relação entre eventos em diferentes territórios, e no mesmo tempo. Hoje essa relação vive num touch de celular.

“Quando uma ordem mundial desaba, inicia-se a reflexão a seu respeito” como disse Ulrich Beck em 2011. Nas palavras de 2017 de Eva Illouz: “O mundo parece ter se tornado, praticamente da noite para o dia, desorganizado.”

Investimentos da máquina de guerra transformaram o planeta. A ordem vigente até recentemente para controlar essa realidade, criada a partir da II Grande Guerra, desmanchou-se, e não há quem arrisque afirmar que há ou qual é a nova ordem. A tecnologia que seguiu os interesses da guerra hoje se incorpora a tudo, na palma da mão de quem usa celular. Ela é tanto libertária quanto disruptiva.

Permite que por uma chamada vem um motorista te levar aonde queira, e sem usar dinheiro vivo. Por um chamado de redes se organizam gigantescas manifestações de rua que vão se repetindo nos mais diferentes países – ninguém comanda, só um chamado pelo celular, que (quase) todos tem. Libertária portanto.

É também disruptiva, porque tem levado à morte setores inteiros que respondiam pelos empregos como os conhecemos no passado recente, que prendiam os empregados em suas bases, seus territórios. As novas tecnologias substituem a intermediação que entre pessoas e entre países faziam as instituições da “antiga ordem” que comandavam o jogo político, social e econômico. No circo dos acontecimentos mundiais, a cadeia de transmissão funcionava, chegando a todo canto, principalmente depois da globalização dos anos 1990, mas com hierarquia.

Depois da queda do Muro de Berlim, ventos fortes mudaram tudo, derrubaram todos os muros, e discute-se se isto é o fim das democracias liberais, do voto como processo decisório da ordem republicana. E erguem-se novos muros…
As redes sociais fazem das instituições com hierarquia – como Partidos Políticos, Estados Democráticos, sindicatos de trabalhadores, instituições ineficientes, velhas para o que se propõem a realizar para atender as demandas das sociedades do Século XXI. Mirando o futuro desde século, perguntamos: que ordem substituirá aquela construída no século XX? O que teremos para celebrar nas datas futuras depois deste 2019? Livros e filmes continuam apresentando as ideias de quem se pergunta sobre essas questões. Em enorme volume. Fascinante.

O que temos a celebrar então? Ah, celebrar sempre a vida com suas surpresas, com a dança do acaso, é preciso. Aliás, os secretários mais próximos do meu governo (2007/2010) notaram que para tudo o que se fazia, cada feito que conquistávamos – muitas vezes em meio ao turbilhão do “vende-se escândalos” da época – eu dizia “Celebremos!”. Usualmente era no final do dia, e eu chamava um espumante gaúcho para honrar a celebração. Essa, então, foi incorporada ao ato de governar. Danem-se os caranguejos. E viva o espumante gaúcho.

Desde 2011, liberta da imensa responsabilidade de governar o estado, percebo um desejo de muitos de entender os atuais tempos, para onde os ventos vão nos levar. A massa de informação que é despejada a cada minuto na incrível época de comunicação compartilhada da nossa era tecnológica do século XXI precisa gerar outra ordem saída de seu natural caos. Decido voltar à coluna diária, pelo meu blog que reativo aos poucos, conforme o estímulo da hora.

Estímulo não falta. O frenético ritmo das coisas ameaça nos tornar líquidos (Zigmunt Bauman). Só que livros escritos não são líquidos. O que faz com que se esteja escrevendo tanto, e tão interessantes textos. O registro nas redes sociais também não. Palavras são capazes de mudar o mundo. Fotos e vídeos também – hoje tornados disponíveis na palma da mão, por celulares que (quase) todos têm, criam uma comunicação quase anárquica.

Recupero, para datar e localizar a ideia da hora, uma forma que deu certo há tempos atrás, quando a vastidão do assunto que me solicitavam expor requeria criar uma expressão em que numa página pudesse conter os fatos marcantes de um grande período de tempo. Como uma fórmula. Um diagrama. Um gráfico. Criei uma “linha do tempo” para um livro de artigos sobre o Rio Grande do Sul (Autonomia ou Submissão) essa expressão. Faz tempo (1973), foi antes de trocarmos o datilografar pelo digitar. Antes de ser uma linha do tempo o condutor para tudo, como hoje.

Para simplificar a exposição de ideias, desenhei uma linha reta, um ponto marcando o início de um período da História, flecha ao final. De um lado da linha, no ano definido, os Acontecimentos Mundiais, do outro os Fatos Nacionais, e o texto que se seguia falava dos acontecimentos no RS, ligando tudo. Não somos uma ilha, e o que acontece no mundo tem íntima relação com o que acontece aqui e agora. Um largo período de tempo que cabe numa página de livro mostrando essa relação.

Um querido parceiro da Universidade, recém falecido, Carlos Alberto Callegaro, lendo o texto disse “é para sempre como roteiro de aula, agora é só ir adicionando”. Pronto, estava criada uma linha do tempo. Hoje, é expressão do cotidiano do mundo digital.

O tempo passa, mas continua nosso estado se debatendo entre a autonomia e a submissão nesse nosso torto Pacto Federativo. Vamos lembrar que o texto era de 1973, quando a internet era apenas uma utopia. Até hoje uso esse conceito para pensar, organizar as ideias, dar palestras, e para escrever. Amo História, feita de largos períodos definidores de ciclos, e ela quando conta com uma linha do tempo pode ser visualmente apreendida. Essa é a estrutura que buscarei usar nas crônicas deste blog. Vamos a elas.

 

* Yeda Crusius é presidente Nacional do PSDB-Mulher. Ministra do Planejamento no governo Itamar Franco (1993), Governadora do RS (2007/2010), Deputada Federal por quatro mandatos.

Data do Artigo: 23/10/2019

2019-11-09T10:58:21+00:00 23 de outubro de 2019|

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