Bem-estar, mal estar: Freud e a tabacaria

A Tabacaria. Esse filme recente traz, ambientado em 1939, o desenvolver de relações que levaram a se concretizar na Alemanha um terrível regime totalitário. Foram forçados a fugir do país cientistas como Sigmund Freud, emigrando para países onde a liberdade era garantida e valorizada. O filme, muito bem elaborado, tem roteiro que abarca muitas facetas de um mesmo evento: o aprendizado de um jovem na busca de sua própria realização. Com uma distinta singularidade: ele tinha Freud para lhe aconselhar. Para que se conhecesse melhor, Freud aconselhou o jovem a deixar um caderno e um lápis na cabeceira da cama para anotar, assim que despertado por algum sonho, o que lembrasse dele. Muitos aplicamos essa rotina, que ajuda muito no processo do autoconhecimento. Sonhos são poderosos. Ainda bem que sonhamos.

Que sonhos têm aqueles que aos milhares respondem a uma convocação pelas redes para participar de mais uma uma manifestação, como tem acontecido em várias partes do mundo? Multidões tomam as ruas nas cidades criando uma rotina de livre participação. Vai quem quer, na imensa maioria jovens, para se posicionar sobre os temas do dia. Aqui as manifestações se sucedem em continuidade às primeiras grandes manifestações de 2013, quando os temas eram outros, bem focados, e que desembocaram em mais um impeachment presidencial. Algumas inclusive escolhem para seu motivo o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal, que tem sido levados a definir o que pode ou não ser feito em todas as áreas de convívio da nossa sociedade dividida. Legislam – função que deveria estar sendo exercida pelo Poder Legislador: o Congresso Nacional.

Hoje os temas são diversos, fluidos, diferentemente das manifestações do passado, focadas, como as das Diretas Já (1984), ou Mulheres e Direito ao Voto (várias). No Chile, em Hong Kong, na Bolívia, no Irã, no Iraque, na Colômbia, em todo lugar, as manifestações tem sido violentas. Morre muita gente. No Líbano, com mortes, derrubaram recentemente mais um governo – como aconteceu em 2011 nas Primaveras Árabes, aqui em 2016. São rupturas, e não transições entre um estado de coisas para outro diferente, desejado. Para minha tristeza na Venezuela, só violência e incompletude.

Zeitgeist. O Espírito do Tempo. Cabe principalmente à filosofia e à religião perguntarem de onde viemos e para onde vamos. Poucos refutam as evidências de que estamos vivendo melhor hoje do que já vivemos no passado. Temos liberdade e democracia, temos remédios para (quase) todas as doenças, vivemos mais, os níveis de miséria e pobreza absoluta em média se reduziram, as revoluções agrícolas tem permitido a produção de alimentos que espantam a fome Malthusiana, as revoluções industriais tem criado produtos novos que tiram o peso do trabalho braçal substituindo-o por máquinas. Problemas, bem, claro, são muitos, e graves também: há insegurança, tiroteios, violência e terrorismo, matam pessoas na nossa frente, em tempo real. A riqueza gerada por essas revoluções tecnológicas e econômicas distribuem o peso do que vai mal de modo muito desigual. Mas se melhorou, por que tanta revolta?

O psicanalista Jorge Forbes (TerraDois, TV Cultura) explica como o jovem de hoje, que tem tantas opções para a sua tomada de decisões, ao escolher uma delas não sente que tenha ganhado com ela e, sim, sente ter perdido as dezenas alternativas. Com isso se gera um mal-estar por estar neste mundo. Mas uma coisa é o racional. Outra é o sentimento que se tem frente às coisas objetivas, concretas, como as melhoras relativas que citei. É a emoção que modela as expectativas, o futuro que se deseja. “Não fomos nós que criamos esse mundo torto!” Nem eu. Mas cada qual é obrigado a encarar o mundo real e decidir o que fazer do seu dia, como responder aos seus desafios, o que escolher.

As políticas de bem-estar de depois da II Grande Guerra geraram bons resultados, aumentando o acesso ao que é importante na vida das pessoas: saúde, educação, segurança, diversão e arte, e que geram a sensação de felicidade. Nas sociedades do bem-estar do Século XX foi responsabilidade dos governos buscar o aumento e a qualidade desses serviços. Produzi-los e distribuí-los custa, e as finanças públicas não aguentam ampliar o acesso a esses direitos. Em toda parte, rompe-se a confiança entre os governos e os governados, tendo a corrupção como sintoma maior desse rompimento.

Crises sucessivas geraram sempre manifestações populares. Países que prezam a estabilidade devem buscar financiar de modo sustentável aposentadorias, saúde e educação de qualidade, segurança pública, para todos. Inclusive para imigrantes, nas novas levas que chegam à Europa e Estados Unidos principalmente. Aumenta o número de cidadãos que reagem reativando movimentos e partidos de extrema direita que durante o crescimento mundial da era da globalização estiveram adormecidos.

Identificar para enfrentar as causas desse mal estar da civilização, termo emprestado de Freud para descrever o que acontecia na virada do outro século, o XIX para o XX, tem sido o grande desafio de hoje. O que se sabe de novo sobre esses jovens? O fantástico desenvolvimento da biologia e da neurociência joga uma luz sobre o processo de tomada de decisão da geração das letras, X e Y e Z e Alpha. Bons livros mostram a evolução nos comportamentos das pessoas que já incorporaram geneticamente em seus cérebros a vivência de seus antepassados, e que seguem na sua vez fazendo mais rápido o que os pioneiros faziam a seu tempo. Evolução. Vale ler.

Correta ou incorreta a grita, o certo é que esses jovens já não vivem no mundo do papel, dos recibos. Dificilmente vão carregar esses três livros que dão uma estrada para entender o mal-estar do século XXI. A neurociência e a biociência mostram que o cérebro vai mudando fisicamente de geração para geração, incorporando geneticamente o aprendizado dos que vieram antes. Mas o mal-estar segue de uma época para outra. Tudo que é sólido de desmancha no ar. Mundo líquido. Não dá para acompanhar tudo…

Querendo ou não, somos responsáveis pelo que ajudamos a construir com as nossas escolhas do passado, assim como os mais jovens são responsáveis pelo futuro que constroem a partir das suas escolhas de hoje. O tempo não para. A tecnologia que ajudamos a criar tomou velocidade e rumos próprios. Robôs substituem trabalhadores. Mas não criam nada, só organizam diferentemente o trabalho. Há quem crie. Há quem use. Nascidos para poderem conviver em paz, os homens continuam fazendo a guerra. Ainda bem que a maioria vota pela paz.
Bom dia!

* Yeda Crusius é presidente Nacional do PSDB-Mulher. Ministra do Planejamento no governo Itamar Franco (1993), Governadora do RS (2007/2010), Deputada Federal por quatro mandatos.

Data do Artigo: 28/11/2019

2019-12-02T13:02:23+00:00 28 de novembro de 2019|

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